O diagnóstico do jurista José Geraldo de Souza Júnior é direto: a atual tensão no Supremo Tribunal Federal tem um elemento que a distingue de episódios anteriores — vem de dentro da própria Corte. Ao analisar o quadro em entrevista a veículos locais, o ex‑reitor da UnB sublinhou que, além da tradicional pressão externa e do ambiente político polarizado, crescem agora as divergências pessoais entre ministros, o que transforma disputas em fator desestabilizador para a instituição.
Para José Geraldo, a polarização do debate público é um componente que alimenta os conflitos, mas não explica integralmente o problema. O que preocupa, segundo ele, é a prevalência de posturas individuais sobre os caminhos coletivos do tribunal: decisões e posicionamentos deveriam ser mediados por regras e práticas institucionais que privilegiem a colegialidade. Na sua visão, quando a instituição está bem balizada, as identidades pessoais tendem a se subordinar ao papel institucional, reduzindo atritos e preservando a autoridade do Supremo.
Sobre reformas no Judiciário, o jurista adota postura cautelosa: mudanças na estrutura, nos critérios de escolha ou na definição de mandatos, avaliou, não devem ser aprovadas em momentos de crise ou no calor do calendário eleitoral. Ele defende que qualquer alteração seja debatida com a participação do próprio Judiciário, do Congresso e da sociedade, evitando medidas emergenciais que possam parecer resposta a choques momentâneos. Mantém, ainda, a avaliação de que o modelo de indicação presidencial com sabatina no Senado é adequado, embora admita espaço para ampliar a participação social no processo de seleção.
Na prática, a recomendação central é reforçar a colegialidade e os mecanismos internos de mediação: conflitos entre ministros, defendeu, precisam ser tratados pelos instrumentos institucionais do tribunal, não pelo embate público entre figuras individuais. O risco concreto, alerta a análise do jurista, é que a repetição de atritos corroa a credibilidade do STF, complique o funcionamento cotidiano da Corte e abra espaço para narrativas que fragilizem a autoridade judicial. A saída proposta passa por diálogo, critérios claros de avaliação de indicações — focados na biografia e capacidade de diálogo — e por postergar mudanças estruturais até que haja um ambiente político e institucional mais estável.