A crise no Supremo Tribunal Federal, longe de mostrar sinais de arrefecimento, assumiu papel central na corrida eleitoral e reconfigurou o mapa de riscos para governo e oposição. Decisões recentes do ministro responsável por autorizar diligências e a deflagração da Operação Make Up deslocaram o centro do debate: temas que vinham pressionando o Executivo — por suspeitas que envolveram nomes ligados ao caso Master — perderam momento diante de investigações que agora alcançam o entorno do principal candidato de oposição e seu partido.

A Operação Make Up cumpriu 49 mandados em quatro unidades federativas, com alvos no universo da produção da cinebiografia associada ao clã Bolsonaro. A apuração, que examina a destinação de cerca de R$ 2 milhões em emendas parlamentares e indícios de documentos posteriores para dar aparência de regularidade a contratos, colocou figuras do PL em posição defensiva. Autoridades que conduzem as diligências falaram em indícios de atuação organizada para captar e ocultar recursos públicos; os investigados negam irregularidades.

Politicamente, a ofensiva alterou o campo: Flávio Bolsonaro passou a ser alvo direto das investigações, reagindo com acusações de interferência política e negando o uso de dinheiro público no projeto cinematográfico. Sua resposta imediata incluiu antecipações sobre o perfil que pretende para futuras indicações ao STF, deixando claro que vê as nomeações como instrumento de revisão ideológica da Corte. Outras lideranças oposicionistas também endureceram o tom, trazendo o tema das nomeações e da suposta parcialidade do Judiciário para o centro da narrativa eleitoral.

Para a campanha governista, a guinada representa oportunidade e risco ao mesmo tempo. A troca de foco reduziu o desgaste imediato sobre o Executivo em torno das reclamações que pairavam sobre a relação entre autoridades e atores financeiros, mas aprofundou a percepção de que o STF se transformou num ator eleitoral relevante, com forte impacto sobre a agenda pública. No curto prazo, a polarização judicial pressiona estratégias de comunicação, força redefinições de alianças e aumenta o custo político de decisões que antes eram tratadas como meramente institucionais. Em suma: o processo reforça a politização do Judiciário e impõe um desafio adicional à narrativa de quem governa e de quem pretende contestá‑lo nas urnas.