O jurista José Geraldo de Souza Júnior, ex-reitor da Universidade de Brasília, vê a crise que atravessa o Supremo Tribunal Federal sob uma característica inédita: a desestabilização não estaria vindo apenas de pressões externas, mas também de comportamentos e conflitos entre integrantes da própria Corte. Em entrevista ao programa CB.Poder, ele alertou para o risco de uma crise que, ao nascer no interior da instituição, tem potencial para reduzir a autoridade e a capacidade de resposta do tribunal.

Ao situar o momento no arco histórico do Supremo, José Geraldo lembrou episódios de tensão das últimas décadas — desde conflitos no período de Floriano Peixoto até a intervenção da ditadura militar — quando fatores externos exerceram maior pressão sobre a Corte. A diferença agora, segundo ele, é que a polarização nacional transborda para dentro do tribunal e cresce a relevância de disputas pessoais e posicionamentos individuais, o que fragiliza a colegialidade e aumenta a imprevisibilidade das decisões.

O ex-reitor avaliou também as divergências públicas entre ministros, citando o caso entre Alexandre de Moraes e André Mendonça como exemplo de rota de tensão em que trajetórias prévias dos magistrados não podem servir de determinante permanente para sua atuação. Para José Geraldo, a institucionalidade deve prevalecer: a Corte funciona melhor quando o rito colegiado e os critérios institucionais reconfiguram posturas pessoais em favor da estabilidade e da previsibilidade jurídica.

Sobre reformas, ele foi cauteloso: mudanças na estrutura do Judiciário — seja sobre competências, regras de escolha ou duração de mandatos — não devem ser feitas em reação imediata à crise ou em ano eleitoral. Defendeu que um eventual projeto de alteração passe por debate amplo envolvendo o próprio Judiciário, o Congresso e a sociedade, para evitar medidas tomadas no calor do curto prazo que possam comprometer a confiança pública no sistema.

Na análise final, José Geraldo não rejeita instrumentos como mandato para ministros ou maior participação social na discussão de indicações, mas relativiza propostas simplistas, como fixar idade mínima isoladamente. Para o jurista, o que conta é a biografia e a capacidade do candidato de atuar com independência e senso institucional. O diagnóstico aponta para um desafio claro: sem retorno à colegialidade e a um diálogo institucional qualificado, a crise interna pode ampliar desgaste e complicar a narrativa sobre a estabilidade das instituições.