A cultura entrou na disputa eleitoral como indicativo de prioridades de Estado. O período Bolsonaro fechou com a extinção do Ministério da Cultura e um recuo no financiamento: os recursos para projetos culturais caíram de R$ 245,5 milhões em 2018 para R$ 89,5 milhões em 2022. Esse histórico funciona como pano de fundo para dois planos de governo que apontam rumos distintos — e apresentam consequências políticas e econômicas claras.

O documento de Flávio Bolsonaro dá ênfase à preservação do patrimônio histórico, dos centros antigos às coleções e acervos, e promete aperfeiçoar leis de incentivo e corrigir distorções. Não há, porém, menção a aumento de financiamento nem propostas específicas para o setor audiovisual. A opção por um roteiro restrito pode agradar parte do eleitorado conservador preocupado com patrimônio, mas deixa em aberto como o setor criativo e suas cadeias produtivas serão sustentadas — um vácuo que pode ser explorado por adversários e que levanta dúvidas sobre capacidade de geração de emprego e renda regional.

O plano de Lula, por sua vez, resgata um papel mais ativo do Estado: preservação de saberes e instituições, aperfeiçoamento da Lei Aldir Blanc e da Lei Rouanet, desconcentração regional e ampliação do fomento via PAC para infraestrutura cultural. Há propostas para regulamentar o streaming, consolidar política industrial do audiovisual, fortalecer direitos autorais em ambiente digital e estimular economia criativa, com formação profissional e acesso a crédito. O documento remete ao legado petista em políticas culturais — de Pontos de Cultura aos CEUs — e sinaliza reativação do setor, mas isso também acende alerta fiscal e exigirá articulação política para aprovar medidas e liberar recursos.

No plano político, os contrastes têm efeito prático: a agenda de Lula amplia a disputa com promessa de recuperar investimentos e industrializar a produção cultural, o que deve atrair setores criativos e parte do eleitorado urbano; a de Flávio complica a narrativa oficial sobre economia criativa ao priorizar patrimônio sem detalhar mecanismos de suporte econômico. Ambos enfrentarão desafios no Congresso — seja para regular plataformas e direitos autorais, seja para convencer aliados sobre a prioridade orçamentária da cultura — e o resultado decidirá se a área volta a ser vista como motor de emprego e desenvolvimento regional ou permanece reduzida a um campo simbólico de preservação.