Em entrevista ao programa CB.Poder, no dia 2 de maio, o psiquiatra e escritor Augusto Cury, pré-candidato à Presidência pelo Avante, defendeu a concessão de anistia para a “grande parte” dos envolvidos nos atos de 8 de janeiro de 2023. Cury disse ainda que consideraria, de forma sincera, uma anistia para o ex-presidente Jair Bolsonaro, mas condicionou a medida à necessidade de conhecer o processo em profundidade e à garantia de segurança jurídica.

O posicionamento combina duas frentes: um apelo à pacificação e um gesto claro em direção ao eleitorado bolsonarista. Cury criticou as penas impostas pelo STF como excessivas e relatou que chegou a interceder em casos concretos — citando atuação em favor de Débora Rodrigues dos Santos — além de manter contato de apoio emocional com Bolsonaro, ao enviar livros como forma de orientação psicológica. Esse conjunto de ações projeta uma proximidade que contrasta com uma postura de árbitro neutro na cena política.

Do ponto de vista institucional, a proposta de anistia levanta questões sensíveis. Perdoar crimes derivados de atos antidemocráticos ou de apoio a eles confrontaria decisões do Supremo e criaria um nó sobre a separação de poderes e a previsibilidade do sistema jurídico. Mais do que um gesto simbólico, uma anistia em larga escala tem potencial de provocar reações no Judiciário e na sociedade e de complicar a narrativa de “pacificação” que Cury pretende emplacar.

Politicamente, a proposta é de alto risco e de cálculo ambíguo. Pode galvanizar parte da base bolsonarista e ser apresentada como reconciliação, mas também tende a afastar eleitorado moderado e quem reivindica responsabilização por ataques às instituições. Para um candidato que se coloca como alternativa, a defesa pública de anistia e a intervenção em casos individuais expõem contradições entre o discurso de união e atos que indicam aliança política — um teste direto à credibilidade do projeto de Cury.