O candidato Augusto Cury (Avante) trouxe à sabatina da TV Globo um roteiro centrado na digitalização do Estado, no uso da inteligência artificial e na redução do número de ministérios. Ao insistir na dimensão fiscal — afirmando que a dívida pública é “estratosférica” e citando até Tolstói —, o presidenciável buscou compor imagem de gestor responsável, mas repetiu argumentos já ensaiados sem converter retórica em medidas quantificadas.
Entre as propostas anunciadas estão a realização de uma auditoria na gestão pública, a revisão de cerca de 50 mil cargos comissionados e o reexame de contratos. A ideia tem apelo econômico, mas Cury não apresentou estimativa de economia nem explicou o processo político para implantar cortes desse porte, o que aponta para um desafio prático diante da necessidade de costurar apoio no Congresso e manter a máquina funcionando.
A inteligência artificial ocupou papel central: Cury propôs criar uma secretaria ou ministério de IA e Robótica para preparar o país às transformações do mercado de trabalho. A proposta toca ponto relevante — automação e qualificação —, mas faltaram detalhes técnicos, cronograma e fonte de recursos para políticas de requalificação, o que pode transformar a ideia em mais um slogan do que em política pública viável.
Outros pontos da sabatina mostram contrastes: a sugestão de taxar casas de apostas em até 50% e a promessa de reformular o Bolsa Família com mecanismos de transição são medidas de grande impacto, cuja implementação provocaria resistências setoriais e eleitorais. No conjunto, Cury apresenta discurso fiscalizador e moderno, mas a ausência de dados e de estratégia operacional reforça a dúvida sobre sua capacidade de traduzir propostas em resultados.