Durante sabatina da Jovem Pan nesta segunda-feira, 7, o candidato à Presidência Augusto Cury (Avante) afirmou que pretende privatizar todas as estatais consideradas ineficientes e citou os Correios como exemplo passível de venda caso não seja possível recuperar sua situação financeira. Cury condicionou a privatização à avaliação de viabilidade: “se o Correio for recuperável, se conseguirmos recuperar, é outra coisa; se não for recuperável, esse rombo do caixa não é suportável”, declarou. O presidenciável também propôs que, em eventual venda, cerca de um terço da empresa fosse destinado a um fundo dos próprios funcionários.

A posição de Cury insere-se numa agenda econômica de corte liberal — priorizando eficiência e redução de ônus fiscal — mas levanta questões políticas e administrativas imediatas. A privatização dos Correios é tema sensível: a empresa acumula funções sociais e presença territorial que justificam cautela na transição. A proposta de reservar parcela para empregados tenta amenizar impactos e atrair apoio sindical interno, mas não responde, na prática, a dúvidas sobre manutenção do serviço universal, preço do frete em áreas remotas e continuidade de contratos sociais que dependem da estatal.

Na esfera econômica e institucional, a venda de uma estatal com déficit exige diagnóstico técnico detalhado para quantificar passivos, subsidiar critérios de avaliação e definir modelo de privatização — concessão, venda integral, capitalização ou privatização por fatias — e não se resolve apenas com intenção política. Cury, ao descartar o mesmo raciocínio para a Petrobras, propôs usar recursos da estatal para financiar crédito a microempresas — “podemos financiar 1 milhão de microempresas por ano só com o dinheiro da Petrobras” — uma proposta que abre debate sobre objetivos da política de dividendos, limites legais e prioridades de investimento no setor energético.

Eleitoralmente, o discurso aponta para tentativa de consolidar apoio do eleitorado pró-mercado e de centro-direita, oferecendo narrativa de responsabilidade fiscal e ruptura com gestão de estatais deficitárias. Ao mesmo tempo, a oferta deixa aberto o terreno para críticas: falta de detalhamento técnico, risco de resistência política e impacto em serviços públicos. Para ganhar densidade, a candidatura terá de apresentar cronograma, critérios de avaliação e mecanismos de proteção social e regulatória — sem isso, a promessa permanece como linha de campanha, sujeita a questionamentos sobre viabilidade e custo político.