A Agência Nacional do Cinema (Ancine) concedeu, no início de agosto, o Registro de Obra Estrangeira (ROE) ao longa Dark Horse, a cinebiografia que tem o ator norte-americano Jim Caviezel no papel de Jair Bolsonaro. Dirigido por Cyrus Nowrasteh e com distribuição pela Europa Filmes, o filme tem 1h40 de duração e, segundo o trailer, tinha previsão de estreia para 7 de setembro. O ROE certifica a obra como estrangeira e é passo inicial obrigatório para que produções desse tipo possam seguir para a etapa seguinte de registro no Brasil.

Apesar da concessão do ROE, o caminho para a exibição comercial ainda não está livre. A Ancine investiga denúncias de que cenas do longa teriam sido gravadas em território brasileiro sem a comunicação prévia ou autorizações exigidas pela agência. Paralelamente, a Polícia Federal determinou prazo de 10 dias, a partir de 21 de agosto, para que a Ancine forneça informações sobre pessoas físicas e jurídicas ligadas à produção. A medida integra verificação mais ampla que aborda a relação entre Flávio Bolsonaro e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, ligada a apurações em curso.

Na prática, o ROE não é sinônimo de autorização final: a Europa Filmes precisa solicitar e obter o Certificado de Registro de Título (CRT) para que o longa possa ser exibido em cinemas, televisão ou plataformas de streaming no país. Eventuais irregularidades apontadas pela Ancine ou desdobramentos da investigação da PF podem atrasar ou condicionar a emissão do CRT, criando obstáculo administrativo que reverbera além do circuito cultural. Para o campo político, a situação transforma o lançamento em um ativo volátil, capaz de gerar desgaste para aliados se provas de infração forem confirmadas.

Além do risco jurídico-administrativo, há custo simbólico e político. A janela de lançamento anunciada no trailer — véspera de feriado cívico — teria potencial de ampliar o impacto midiático da obra; ao mesmo tempo, a tramitação das investigações transforma o filme em um fator de risco para quem o patrocina ou associa ao projeto. Resta agora acompanhar a resposta da Ancine às solicitações da PF, a eventual solicitação do CRT pela distribuidora e a decisão comercial da Europa Filmes sobre a programação. Caso o processo se arraste, a estreia pode ser adiada ou sujeita a condicionantes que limitem a circulação do filme.