Documentos obtidos pela Polícia Federal mostram que a produção do filme biográfico sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro calibrava expectativas de arrecadação muito superiores aos parâmetros do mercado nacional. No cenário mais conservador os idealizadores previam receitas de US$ 45 milhões — cerca de R$ 230 milhões na cotação usada pela investigação — e, no cenário otimista, uma estimativa que alcançava R$ 358 milhões. Para efeito de comparação, a maior bilheteria da história do cinema brasileiro, Minha Mãe é Uma Peça 3, arrecadou aproximadamente R$ 120 milhões.

Os registros também apontam para aportes financeiros significativos. Do empresário Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, teriam saído aportes equivalentes a cerca de US$ 12,3 milhões (aproximadamente R$ 64 milhões) por meio da Entre Investimentos para o Havengate Development Fund LP, fundo sediado nos Estados Unidos e ligado a Paulo Calixto, advogado próximo à família Bolsonaro. Em contrato de risco, estava prevista remuneração de 20% sobre o capital aplicado.

A investigação da PF traz ainda elementos que conectam decisões financeiras a atores políticos: mensagens apreendidas indicam interlocuções entre Thiago Miranda e Vorcaro com orientações atribuídas a Eduardo Bolsonaro sobre a gestão dos recursos, menções a Altieres Santana — gestor do Havengate no Texas — e anotações que envolvem o senador Flávio Bolsonaro em tratativas sobre aportes. Eduardo, que deixou o mandato de deputado e vive na Flórida desde fevereiro de 2025, é alvo de apuração no STF, sob relatoria do ministro Alexandre de Moraes, sobre suas atividades no exterior.

Do ponto de vista político e eleitoral, os fatos expostos nas peças da PF ampliam o grau de escrutínio sobre a relação entre financiamento cultural e interesses da família Bolsonaro. Além do potencial impacto jurídico — que pode alimentar investigações e questionamentos institucionais — há uma dimensão reputacional: estimativas de receita muito acima do mercado e ligações diretas a operadores e parentes compõem uma narrativa que pode complicar a estratégia eleitoral do grupo em 2026, exigindo respostas públicas e transparência sobre origem, destino e critérios dos aportes.