Uma pesquisa Datafolha divulgada nesta terça-feira mostra uma contradição nítida na percepção pública sobre o Supremo Tribunal Federal: 75% dos entrevistados dizem que os ministros concentram poder além do necessário, mas 71% avaliam que a corte é essencial para proteger a democracia. O levantamento, feito entre 7 e 9 de abril com 2.004 pessoas em 137 municípios, tem margem de erro de dois pontos e está registrado no TSE.

Os números acentuam a polarização política. Entre eleitores de Jair Bolsonaro, 88% enxergam excesso de poder no STF; entre os de Luiz Inácio Lula da Silva, o índice é menor, 64%. Na avaliação da importância institucional, 84% dos eleitores de Lula consideram o tribunal essencial, contra 60% entre apoiadores de Bolsonaro. O contraste revela que apoio institucional ainda existe, mas é seletivo e marcado por alinhamentos partidários.

Além do contraste, o levantamento aponta perda de credibilidade: 75% dizem que a confiança no STF é menor hoje do que no passado. Esses dados expõem desgaste que pode traduzir-se em maior vigilância política sobre decisões da corte, potencial aumento de tensão entre poderes e pressão pública por transparência e moderação ministerial. Em termos práticos, a combinação de desconfiança e reconhecimento funcional complica a narrativa oficial e eleva o custo político de decisões controversas.

O resultado funciona como retrato do momento, não como prognóstico. Para o Supremo, a pesquisa acende alerta sobre a necessidade de recuperar confiança sem abrir mão de sua independência. Para governos e atores políticos, os números indicam terreno sensível: atacar ou defender o tribunal pode render ganhos imediatos junto a bases eleitorais, mas também aprofundar desgaste institucional e deslegitimar decisões cruciais no médio prazo.