Em pouco tempo Flávio Bolsonaro deixou de ser o “queridinho” da Faria Lima para enfrentar uma sucessão de problemas que fragilizaram sua imagem política. A publicação, em 13 de maio, dos áudios que o ligam ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro marcou o ponto de iniciação do desgaste: o material interrompeu a narrativa de um “Bolsonaro moderado” capaz de atrair mercado e parcela do eleitorado independente. Para eleitores que depositaram expectativa em uma versão mais pragmática do bolsonarismo, os áudios provocaram desilusão e abriram espaço para que adversários consolidem vantagem momentânea.
A tentativa de contenção, porém, trouxe novos efeitos colaterais. A saída para buscar apoio externo levou Flávio à Casa Branca, onde tentou capitalizar o anúncio sobre a classificação de organizações criminosas como terroristas — medida de impacto mais simbólico do que prático. O encontro acabou comprimido por outra questão: a ameaça de tarifas retaliatórias dos EUA, de até 25% sobre produtos brasileiros, anunciada por Donald Trump. Ao pedir ao USTR que adiasse a medida e afirmar publicamente que o tarifaço beneficiaria Lula, Flávio provocou reações negativas dentro da própria base e entre antigos apoiadores, ampliando o desgaste e complicando a narrativa oficial de competência internacional.
No plano interno do PL, a crise ganhou contornos familiares e de guerra de bastidores. Vídeos e declarações públicas de Michelle Bolsonaro, que disse ter sido “apunhalada” por atitudes do senador em disputa sobre o comando do PL Mulher, transformaram um problema de imagem em confronto público entre membros da família e líderes do partido. Surgiram ainda especulações sobre articulações de aliados — algumas desmentidas por envolvidos como Nikolas Ferreira — e um episódio adicional: o consultor Paulo Figueiredo publicou vídeo com comentário depreciativo sobre mulheres, que repercutiu mal entre eleitores e aliados. Esse somatório de atritos expõe fragilidade na capacidade do grupo de fechar filas e alimentar coesão num ano eleitoral.
A detenção do ex-prefeito Márcio Canella, aliado de Flávio no Rio, elevou o nível de gravidade. A operação da Polícia Federal, que encontrou um fuzil e mira suspeitas de organização criminosa e lavagem envolvendo postos de combustíveis, abriu espaço para fogo amigo na disputa pela vaga ao Senado e obrigou o partido a redesenhar palanques locais. No conjunto, os fatos — áudios, diplomacia controversa, rachas internos e investigações — formam uma sequência que reduz margem de erro para o senador: sinalizam perda de confiança entre financiadores e eleitores moderados, aumentam a pressão sobre a direção do PL e exigem reação rápida se a pré-candidatura pretende sobreviver ao desgaste até 2026. O quadro, por enquanto, é o de uma candidatura que precisa rever estratégia e recompor alianças para não ver a vantagem inicial se dissipar.