O último debate presidencial antes do segundo turno chega com um prêmio óbvio: a capacidade de mudar a narrativa. Técnicamente empatados nas pesquisas — com o senador numericamente à frente — Lula e Flávio Bolsonaro chegaram ao confronto com mudanças claras de tática. O presidente passou dois dias em preparação no Palácio da Alvorada, buscando recuperar a voz e afinar presença; auxiliares admitem que só um desempenho superior permitiria tentar a virada. Do outro lado, o senador também intensificou treinos em Brasília e no Rio, cercado por auxiliares e pelo governador Tarcísio de Freitas, numa tentativa de dar mais substância a uma imagem que, segundo levantamentos, vem oscilando.

As coordenações redefiniram prioridades em função do diagnóstico das pesquisas qualitativas: falta de propostas e sensação de evasão pesaram no encontro anterior. A campanha de Lula desenhou três eixos: explorar a agenda de cortes que o adversário defende, reagir a investidas sobre investigações e responder às acusações ligadas ao caso Roberta Luchsinger. Do ponto de vista institucional, chamou atenção a negociação do ministro Sidônio Palmeira com a Globo para evitar circulação de candidatos pelo palco. A recusa da emissora em permitir checagem ao vivo — que ficará restrita à área "Fato ou Fake" do G1 — reduz o freio imediato sobre eventuais distorções durante a transmissão e desloca a checagem para o ambiente digital pós-debate.

Na estratégia do senador, o movimento é claro: buscar indecisos com pautas populares e evitar temas que soem como velhas trincheiras. A orientação é priorizar segurança para mulheres, combater a alta dos alimentos e defender a manutenção do Bolsa Família, enquanto as críticas ao governo vão focar em fraudes no INSS e nas denúncias trazidas por Roberta Luchsinger sobre Lulinha. A campanha também resolveu deixar de fora capítulos antigos como Mensalão e Petrolão, e pediu respostas diretas a temas que no primeiro debate geraram a impressão de evasão — desde o alinhamento com Javier Milei até a relação com financiadores e projetos culturais. Em paralelo, a equipe tenta afastar o candidato da influência de Pablo Marçal, depois das oscilações apontadas nas pesquisas, que trouxeram números como 52% para o senador em um levantamento e queda na rejeição de Lula para 47% em outro.

O efeito prático desse rearranjo é político e imediato: o debate ganhou caráter de teste de governabilidade e de credibilidade. Para Lula, pesam a necessidade de retomar iniciativa e transformar argumentos em propostas claras que convençam eleitores hesitantes. Para Flávio, a aposta é consolidar vantagem com medidas de apelo amplo, mas há risco de perda de coerência para eleitores mais próximos se o deslocamento for percebido como cálculo eleitoral. A falta de checagem em tempo real também altera o custo de afirmações imprecisas, pressionando as redações e as campanhas a disputar narrativas no pós-debate. Em suma, o confronto na Globo não é apenas espetáculo: é um momento decisivo para calibrar a ofensiva final, testar resiliência e, sobretudo, ganhar ou perder tração junto ao eleitor mediano que tende a decidir o resultado.