A secretária nacional de Articulação Institucional, Ações Temáticas e Participação Política do Ministério das Mulheres, Sandra Kennedy, afirmou que as mulheres precisam ser o foco central nas conversas sobre a redução da jornada e o fim da escala 6x1. Em evento promovido pelo Correio, ela apontou que discutir carga horária sem considerar a realidade familiar e laboral feminina significa ignorar parcela majoritária da força de trabalho.

Kennedy lembrou dados que marcam o problema: mulheres representam 56% da população economicamente ativa; 44% das ocupadas cumprem 44 horas semanais; 51,7% dos lares são chefiados por mulheres e cerca de 30% desses lares são de mães solo. Para a secretária, essa combinação torna mais severos os efeitos de jornadas extensas, sobretudo para trabalhadoras de baixa renda que enfrentam longos deslocamentos.

A secretária também enfatizou o impacto sobre a saúde mental: em plenária realizada em Belém, com cerca de 400 mulheres, a principal queixa foi o adoecimento decorrente da sobrecarga. Kennedy defendeu que a redução da jornada seja acompanhada por políticas públicas de cuidado, como ampliação de creches em tempo integral, escolas integrais e centros de atendimento para idosos — medidas que, na sua avaliação, já passaram a constar na agenda pública com a criação da Política Nacional do Cuidado e do Plano Nacional do Cuidado.

O argumento combina dimensão social e econômica: além de aliviar a dupla ou tripla jornada, políticas de cuidado podem reduzir desigualdades salariais persistentes — hoje, segundo a secretária, mulheres recebem em média 21% menos que homens — e mitigar custos de saúde e produtividade. Para além da defesa técnica, o recado impõe um desafio político ao governo: se decidir avançar, terá de integrar medidas de cuidado à proposta de redução da jornada ou enfrentar críticas por tratar o tema como mera reorganização de turnos.