O cientista político Jorge Mizael, sócio da Metapolítica Consultoria, avaliou no programa CB.Poder que o debate promovido pela Band, no domingo (18), frustrou o eleitor ao privilegiar a disputa por cortes virais em vez da troca aprofundada sobre políticas públicas. Segundo Mizael, a dinâmica entre os candidatos teve caráter "geracional": Lula tentou o enfrentamento tradicional, enquanto Flávio Bolsonaro buscou montar recortes para redes.

Na análise do especialista, a opção de Flávio por evitar embates diretos funcionou: ele sacrificou a interlocução ao vivo para garantir fragmentos com potencial de viralização, enquanto Lula não conseguiu forçar a discussão dos temas que pretendia. A falta de interação entre ambos e a repetição de bordões geraram irritação na plateia e empobrecimento do conteúdo.

Mizael destacou que pautas relevantes — como o reposicionamento do PT sobre redução da maioridade penal, segurança pública e a PEC que altera a escala 6x1 — ficaram de fora do debate real. Mesmo questões pontuais mencionadas no programa, como o questionamento sobre o financiamento do filme Dark Horse e os R$ 154 milhões, viraram resposta curta e repetitiva, sem esclarecimento que interessasse ao eleitor médio.

O formato adotado pela emissora, com 30 minutos em que os candidatos controlam o próprio tempo, tinha potencial de aprofundar temas, mas também abriu ampla margem para evitar respostas. Para o cientista político, isso reduz a capacidade do debate de engajar os quase 40 milhões de brasileiros considerados indecisos ou desengajados no segundo turno e transforma o evento em matriz de material para redes em vez de fórum de esclarecimento.

Como consequência prática, Mizael prevê que os próximos embates serão ainda mais orientados às redes: grupos organizados e militâncias digitais vão explorar trechos para alimentar narrativas e tentar mudar o fluxo do pleito. A leitura política é clara — o episódio acende alerta para a campanha de Lula, que precisa reaprender a traduzir propostas em formatos que resistam à lógica dos cortes, e confirma que a disputa seguirá marcada pela batalha pela atenção online.