A segunda edição do Guia Internet, Democracia e Eleições, publicada pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br) em 22/9, aponta uma mudança significativa no mapa da desinformação: vídeos falsos produzidos por inteligência artificial e conteúdos de baixa qualidade passaram a ser a principal ameaça digital às eleições. A pesquisa acende alerta sobre a migração do problema das redes abertas, como o Facebook em 2018, para plataformas fechadas — sobretudo o WhatsApp — onde mensagens e vídeos circulam com mais rapidez e controle de grupos.
O documento chama atenção para o formato: o vídeo, quase sempre acompanhado de um texto curto que ancora a narrativa, é hoje o vetor dominante. Ferramentas de IA generativa, que se intensificaram desde 2022, combinadas a sistemas de difusão e microsegmentação, tornam possível produzir conteúdos realistas e direcionados a nichos específicos. O resultado é um material enganoso com aparência de verdade que, segundo o guia, pode confundir até usuários experientes e ampliar a capacidade de influenciar eleitorados locais.
Há consequências práticas e institucionais. O relatório alerta para o risco de erosão da confiança em imprensa e Judiciário e para o efeito de reforço ideológico provocado pela racionalidade motivada — isto é, a tendência de consumir apenas informações que confirmem crenças pré-existentes. Especialistas mencionados pelo CGI.br consideram que as regras atuais do TSE e os mecanismos de auto-regulação das plataformas podem ser insuficientes diante da velocidade e do realismo das deepfakes. A resposta exigirá combinação de tecnologia para detecção, maior transparência das plataformas, investimento em checagem e política pública de alfabetização midiática.
Politicamente, o diagnóstico complica a agenda de atores públicos e privados: sem medidas eficazes, deepfakes podem transformar dúvida seletiva em descrédito generalizado, ampliando o custo político de informações manipuladas e dificultando a responsabilização de autores e difusores. O desafio é técnico e regulatório, mas tem impacto direto sobre a qualidade do debate eleitoral e sobre a validade do voto informado — e, por isso, precisa sair das prateleiras de estudos e virar ação coordenada entre Estado, autoridades eleitorais, empresas e sociedade civil.