A apuração do primeiro turno deixou claro que a disputa presidencial em 2026 chegará ao segundo turno com geografia bem definida: Luiz Inácio Lula da Silva liderou em 12 unidades federativas — com domínio absoluto no Nordeste e vitórias em três estados do Norte — enquanto Flávio Bolsonaro saiu à frente em 14 estados e no Distrito Federal, abrangendo Sul, Sudeste, Centro‑Oeste e parte do Norte. O resultado reconfigura o que até aqui era campanha individual: os presidenciáveis derrotados ganharam importância como potenciais vetores de transferência de votos e de legitimidade política para uma das duas candidaturas.
Entre os nomes que podem pesar na reta final, Romeu Zema já declarou apoio a Flávio, sinal que tende a acelerar a costura formal entre o Novo e o PL. O valor prático desse apoio, porém, merece desconfiança: o material de campanha e a trajetória recente de Zema revelam fragilidades internas e limitada capacidade de projeção nacional — fatores que reduzem o cacife real da aliança. Ainda assim, em um segundo turno polarizado, ter o rótulo de apoio consolidado dá a Flávio um argumento político e logístico que pode facilitar costuras estaduais e atrair eleitores econômicos que viam em Zema uma alternativa à polarização.
Ronaldo Caiado e o PSD aparecem como incógnita estratégica. A legenda tem presença em pastas e administrações que transitam entre a base federal e governos com perfil bolsonarista, o que lhes confere poder de barganha: a opção por neutralidade e a liberação de voto é plausível e, nesse quadro, torna‑se uma peça que pode favorecer tanto a contenção de danos para Flávio quanto a dispersão de votos anti‑petistas. A própria campanha de Caiado, marcada por hesitações e pela escolha de vice técnico‑político, expõe desgaste que limita sua capacidade de transferir massa crítica de eleitores.
Renan Santos e Augusto Cury compõem o bloco de incertezas do campo opositor ao PT. Renan é identificado como adversário declarado de Flávio, mas está à frente de um projeto partidário que, por natureza, se coloca contra o petismo — uma contradição que dificulta previsões sobre orientação de votos em bloco. Cury, por sua vez, tende a favorecer o senador do PL, mas já foi procurado por emissários do presidente, sinalizando que Lula também tenta neutralizar riscos por meio de interlocuções. A conclusão é que esses apoiadores potenciais valem menos pelo volume automático de votos e mais pelo sinal político: quem se posicionar pode influenciar indecisos, lideranças locais e articulações regionais.
Na prática, o segundo turno passa a ser uma guerra de narrativas e de costuras partidárias. Para Flávio, o desafio é transformar apoios declarados em transferência efetiva de votos e ampliar penetração em áreas onde Lula mostrou força. Para Lula, o caminho é consolidar mobilização no Nordeste e converter aproximações pontuais com derrotados em imagens de amplitude e governabilidade. Em ambos os casos, a negociação com Zema, Caiado, Renan e Cury não é apenas soma aritmética de votos: é teste de penetrabilidade eleitoral, de capacidade de arregimentar lideranças e de reduzir a margem de indecisos — atributos que podem, afinal, decidir a eleição.