A deflagração da Operação Miragem pela Polícia Federal transformou o caso Digimais — banco controlado pelo bispo Edir Macedo — em algo mais do que um escândalo isolado. As suspeitas listadas pela investigação — manipulação de balanços, ocultação de prejuízos, superavaliação de ativos e venda de créditos sem lastro — espelham, em roteiro e instrumentos, o colapso que levou à liquidação do Banco Master. Essa repetição de padrão em instituições de médio porte acende um sinal de alerta: o risco deixa de ser microprudencial e passa a ter potencial sistêmico.

O núcleo do problema é técnico, mas as consequências são políticas e econômicas. Investigadores apontam o uso de carteiras de crédito de qualidade duvidosa para inflar ativos e mascarar déficits; estruturas como FIDCs e operações de cessão de crédito aparecem como veículos para dispersar riscos. Há menção a exposição do Digimais a ativos ligados ao Master na ordem de centenas de milhões — cifra que, somada a balanços artificiais, teria levado os investigadores a estimar necessidade de aporte do FGC em torno de R$ 7 bilhões para cobrir déficits. O Banco Central já identificou lançamentos e registros de ativos sem lastro, situação que, se confirmada, transforma um problema de governança em questão de confiança no sistema.

O ingrediente político é claro: o FGC foi criado para proteger poupadores e evitar contágio. Quando gestores apostam que perdas serão parcialmente socializadas, instala-se um risco moral que pode custar caro ao erário e ao crédito doméstico. O episódio amplifica pressão sobre o Banco Central, sobre o próprio FGC e sobre o Congresso, que deverá acompanhar desdobramentos e cobrar respostas. Para o governo e para os reguladores, o desafio é duplo: evitar que a crise contamine outras instituições e, ao mesmo tempo, demonstrar que há responsabilização efetiva de controladores e administradores.

As lições imediatas são técnicas e políticas. Do ponto de vista regulatório é preciso ampliar a transparência das operações com FIDCs e veículos de securitização, reforçar auditorias independentes e acelerar verificações patrimoniais em redes de relações entre bancos e fundos. Do ponto de vista institucional, a investigação será um teste sobre a capacidade do sistema de supervisão de cortar canais de contágio sem recorrer à simples socialização de perdas. Se isso não ocorrer, o custo será medido em crédito mais caro, maior aversão ao risco no mercado interbancário e pressão política por novas regras — com impacto direto na economia e na confiança do cidadão.