A investigação sobre o financiamento do filme Dark Horse, que retrata a trajetória de Jair Bolsonaro, ganhou um novo capítulo nesta semana. O ministro do Supremo Tribunal Federal Flávio Dino ordenou abertura de apuração preliminar, com sigilo de nível 3, a partir de petições apresentadas por deputados que questionam a origem e o destino de emendas parlamentares. Paralelamente, o Ministério Público junto ao Tribunal de Contas da União (MPTCU) formalizou representação solicitando que o TCU verifique indícios de irregularidades na captação e uso de recursos vinculados à produção cinematográfica.

O quadro se complica após o vazamento de diálogos em que o senador Flávio Bolsonaro negocia com o empresário Daniel Vorcaro, proprietário do Banco Master, um aporte de R$ 134 milhões para custear o longa. Parlamentares apontaram que emendas foram destinadas ao Instituto Conhecer Brasil e à Academia Nacional de Cultura, entidades que integram um grupo de organizações ligadas à produtora Go Up Entertainment, responsável pela obra. Deputados mencionados nas petições — entre eles Marcos Pollon, Mario Frias e Bia Kicis — aparecem como autores de emendas. Pollon e Kicis negaram repasses diretos à produtora; Frias destinou R$ 2 milhões ao Instituto Conhecer Brasil em 2024 e 2025, e acabou não sendo localizado inicialmente pelo oficial de justiça, o que levou o ministro a pedir à Câmara os endereços residenciais do parlamentar.

Na representação ao TCU, o subprocurador Lucas Furtado destacou a ligação financeira do Banco Master com recursos públicos: citou aporte de cerca de R$ 12 bilhões do Banco de Brasília (BRB) e a presença de recursos de regimes próprios de previdência (RPPS) custodiados em ativos do banco, o que, segundo o MPTCU, pode criar riscos à poupança e à aposentadoria de servidores. O pedido ao Tribunal de Contas solicita investigação não só sobre emendas, mas também sobre eventual uso de incentivos fiscais, benefícios tributários, patrocínios, convênios, contratos administrativos ou termos de fomento relacionados à produção.

A abertura simultânea de apuração no STF e de procedimentos no TCU eleva a disputa para o plano institucional e político. A investigação acende alerta sobre a rastreabilidade de recursos públicos quando estruturas de entidades e produtoras se interconectam, como apontou a deputada Tabata Amaral ao descrever um 'ecossistema' que dificultaria o acompanhamento dos fluxos. Politicamente, o caso amplia desgaste para o entorno do ex-presidente e força aliados a esclarecer montagens contábeis e eventuais repasses. Do ponto de vista institucional, o desfecho dependerá da capacidade do TCU de traçar vínculos financeiros e da disposição da Câmara em prestar informações completas — exigências que tendem a intensificar pressão por maior transparência e por respostas rápidas dos envolvidos.