Em postagem nas redes, o ministro Flávio Dino colocou em xeque a proposta de encerrar investigações apenas com o argumento de duração prolongada, questionando também a eventual promessa de fim de processos para angariar aplausos. A declaração foi lida como uma resposta indireta ao presidente do STF, Edson Fachin, que sugeriu encerrar o inquérito das fake news como forma de diminuir o ruído político em torno da Corte. Para Dino, porém, arquivamentos e oferecimento de ações penais exigem critérios legais — não cálculo de opinião pública.

O episódio chega num momento de escalada institucional. A crise que envolve Alexandre de Moraes e André Mendonça ganhou novos capítulos após Mendonça ordenar relatório sobre relações entre o banqueiro Daniel Vorcaro e interlocutores ligados a Moraes; a PGR pediu a anulação desse relatório por entender que houve investigação sem previsão do plenário. Em resposta, Moraes pediu a inclusão de Mendonça no inquérito das fake news, com base em relatórios de inteligência da Polícia Federal que, segundo os próprios documentos, carecem de lastro probatório. Fachin negou o pedido inicial de inclusão e abriu prazo para manifestações até 21 de setembro.

Além da disputa imediata entre ministros, a reação de Dino traz consequência política: complica a tentativa de Fachin de usar o fim do inquérito como remendo rápido para um desgaste institucional mais amplo. Ao enfatizar a necessidade de critérios regimentais e legais para arquivamento, Dino amplia o debate sobre independência técnica versus soluções de curto prazo para apaziguar a opinião pública. O argumento também fortalece a defesa das decisões monocráticas como ferramenta necessária para evitar que toda matéria com jurisprudência definida vá ao colegiado, o que, segundo ele, aumentaria ainda mais a morosidade do Judiciário.

A cena pública do STF sai desgastada. A disputa expõe contradições sobre como preservar a credibilidade institucional: há risco real de que iniciativas apresentadas como reforma ou pacificação sejam percebidas como respostas políticas a crises pessoais e eleitorais, como apontou o próprio ministro ao criticar o efeito de "ódios pessoais" e "interesses eleitorais" no debate sobre mudanças no Judiciário. Para o campo político e para o mercado, o custo é prático: aumento da incerteza sobre regras do foro, possíveis contestações processuais e a sensação de que decisões judiciais podem ser instrumentalizadas para ganhos imediatos. O cenário, portanto, acende alerta sobre a dificuldade de normalizar a Corte sem clareza de critérios e sem recompor confiança entre seus membros.