Representar um país em momentos de crise é uma das tarefas mais ingratas da diplomacia. Embaixadores e embaixadoras têm a missão técnica e discreta de manter canais de diálogo e reduzir danos, mas, quando as tensões escapam dos gabinetes presidenciais, acabam convertidos em símbolos e alvos. Nos últimos episódios envolvendo Brasil, Estados Unidos, Argentina e Israel, a prática diplomática foi testada ao limite: a diplomacia deixou de ser ponte e virou peça de pressão.

O caso mais recente envolve a embaixadora Maria Luiza Ribeiro Viotti, em Washington, cujo visto foi revogado pelas autoridades americanas em um momento de escalada entre os governos. Os norte-americanos vincularam a medida à demora do Brasil em conceder o agrément a Daniel Perez, indicado a Brasília, e à negativa de vistos a diplomatas dos EUA. A aprovação de Perez pelo Senado americano — 51 a 47 — não substitui a necessidade do agrément brasileiro, e a situação ilustra como procedimentos protocolares se convertem em instrumento de confronto. Um interlocutor do governo já afirmou que tentativas de pressão externas não necessariamente surtirão efeito sobre a estratégia oficial em Brasília.

Em Buenos Aires, o embaixador Júlio Bitelli foi chamado para consultas após declarações públicas de Javier Milei contra o presidente e o ministro do STF, e o governo optou por não estabelecer prazo para seu retorno, mantendo a relação em nível mais baixo. Em fevereiro, a convocação do embaixador Frederico Meyer a Brasília — e a repercussão constrangedora do episódio em Jerusalém, quando o protocolo israelense levou o representante brasileiro ao memorial do Holocausto para um esclarecimento público — lembraram que reações simbólicas podem ser duras e danosas ao trabalho cotidiano das missões. Na outra ponta, a convocação do embaixador de Israel em Brasília para prestar esclarecimentos mostrou que a diplomacia funciona simultaneamente como canal e mensageira da insatisfação estatal.

O custo é prático e político. Reduzir interlocução dificulta negociações, atrasa cooperação em comércio, segurança e cultura, e eleva o risco de mal-entendidos que fogem ao controle técnico dos chanceleres. Para o governo, a escalada transmite sinais de desgaste e complica uma agenda externa que precisa de previsibilidade. Para o Itamaraty, impõe operações de contenção: preservar canais sem validar provocações é tarefa delicada, que exige decisão estratégica clara e respeito às normas protocolares para evitar que episódios pontuais se convertam em crise duradoura das relações bilaterais.