No XIV Fórum de Lisboa sobre tecnologia e soberania, o jurista Vitalino Canas ofereceu um diagnóstico que combina prudência e urgência: o direito tende a reagir com atraso às grandes inovações e corre o risco de ficar atrás da revolução digital. Para Canas, isso não é surpresa — o sistema jurídico é, por natureza, conservador — mas exige uma resposta organizada, que passe pela regulação das plataformas digitais sem sufocar a inovação. A proposta central é buscar um modelo intermediário, que equilibre liberdade de expressão, iniciativa econômica e proteção contra manipulações.
O debate ganha dimensão política no Brasil: ministros do Supremo Tribunal Federal e o presidente da Câmara, Hugo Motta, têm cobrado normas sobre big techs e inteligência artificial. Canas endossa a necessidade de um marco legal porém avisa sobre dois perigos concretos. O primeiro é a demora ou a reação insuficiente, que deixa espaços para manipulação de conteúdo e erosão da confiança pública. O segundo é o excesso de controle estatal, que pode cercear mercados, inibir investimento e gerar custos econômicos sem resolver o problema de fundo. O jornalismo e as instituições precisam acompanhar esse equilíbrio.
Além de normas, Canas aponta para uma medida menos glamourosa, mas decisiva: educação crítica. Se a sociedade não for capaz de interpretar sinais, distinguir fontes e questionar algoritmos, qualquer regulação terá eficácia limitada. Politicamente, isso coloca pressão sobre o Congresso e o Executivo para acelerar debates técnicos e pedagógicos, sob risco de alimentar um ciclo de desconfiança que atinge instituições e partidos. Internationalmente, o jurista vê potencial em acordos entre blocos — em especial entre Brasil e União Europeia — como caminhos práticos para uniformizar padrões e reduzir brechas exploráveis por atores transnacionais.
O quadro abre um dilema claro para governantes e legisladores: agir com velocidade e técnica ou propor soluções simplistas que gerem custos políticos e econômicos. A saída defendida por Canas — regulação equilibrada, cooperação externa e investimento em formação crítica — indica uma agenda de médio prazo que exige coordenação institucional e compromisso com eficácia, não apenas com símbolo. Para o leitor, a mensagem é direta: a disputa sobre IA e plataformas não é apenas tecnológica; é política, econômica e institucional, e definirá a qualidade da democracia nas próximas décadas.