A disputa pelo controle das grandes plataformas e da infraestrutura digital deixou de ser tema técnico para virar questão central da política. À medida que a inteligência artificial reduz custos e acelera a produção de conteúdos sintéticos, o impacto sobre a formação da opinião pública cresce: não é preciso escolher candidatos — basta redesenhar como a informação circula. O Brasil chega à janela eleitoral de 2026 com experiência acumulada em campanhas digitais e manobras de desinformação, mas sem controle efetivo sobre os centros de decisão tecnológica.
O desafio é estrutural. Plataformas, provedores de nuvem, fabricantes de chips e desenvolvedores de modelos de IA operam em cadeias globais que fogem ao alcance direto das instituições brasileiras. Órgãos públicos têm travado batalhas antitruste e o Tribunal Superior Eleitoral introduziu limitações ao uso de sistemas que recomendem candidaturas e regras sobre conteúdo sintético, mas a ação do Judiciário ou da legislação nacional tem limites se a infraestrutura crítica permanecer nas mãos de empresas estrangeiras.
Há uma dimensão geopolítica que complica o tabuleiro: decisões sobre regulação digital são também disputas de soberania e comércio. Pressões entre Estados Unidos e União Europeia sobre normas, e a influência de atores privados no debate público, tornam a regulação local mais difícil. Nesse contexto, medidas pontuais do TSE — bem-vindas — podem até mitigar modus operandi de desinformação, mas não eliminam o risco da industrialização da persuasão, que agora se apoia em ferramentas escaláveis e baratas.
Politicamente, o cenário acende alerta para 2026. Números e microtargeting potencializados por IA ampliam a capacidade de segmentação de mensagens, tornando a campanha mais volátil e difícil de fiscalizar. A consequência é dupla: pressão por respostas rápidas e custo político para quem governa se medidas mais duras atingirem empresas com grande penetração social. Ao mesmo tempo, a inação cria desgaste por omissão — uma perda de controle que pode ser explorada eleitoralmente pela oposição e por atores externos.
A saída exige combinação de iniciativas: estratégia de soberania digital, investimento em capacidade técnica própria, ampliação da cooperação internacional e regras claras sobre transparência algorítmica e auditoria independente. Há custo fiscal e técnico nessa agenda, mas o preço da espera é a dependência de decisões privadas sobre o fluxo de informação pública. Para o governo e o Congresso, a escolha é política: reagir com projeto coerente ou ver a pauta ser imposta por interesses que transcendem o debate eleitoral.