O homicídio de um homem e de um adolescente dentro de um carro em Ubatuba, em 10 de dezembro, e a elevação dos homicídios dolosos no município — 24 em 2025 ante 13 no ano anterior, segundo a Secretaria de Segurança Pública — não podem ser lidos apenas como episódios isolados. Investigadores e pesquisadores consultados pela BBC News Brasil traçam um padrão: o Comando Vermelho (CV) tem feito incursões em áreas do litoral norte e também na região de Piracicaba, aproveitando espaços deixados pelo Primeiro Comando da Capital (PCC). Em São Paulo, onde o PCC detinha hegemonia no varejo das drogas, a novidade é política e estratégica: sinais de perda de controle territorial no nível local.
As razões apontadas pelas fontes combinam fatores organizacionais e de mercado. A transformação do PCC nos últimos 30 anos — de associação de detentos a organização com atuação em tráfico internacional e negócios legais — levou a uma diversificação que deslocou parte do foco do varejo para operações de maior escala e menor risco relativo. Investigações e operações como a Carbono Oculto mostram que a facção ampliou ganhos em segmentos que vão além das 'biqueiras'. Estudo do Fórum Brasileiro de Segurança Pública estima que o crime organizado faturou cerca de R$ 350 bilhões nos últimos três anos, cenário que ajuda a entender por que os líderes criminais privilegiam canais mais lucrativos e menos expostos.
Esse deslocamento abre espaço para concorrência violenta. Onde o PCC reduz a presença, comerciantes de drogas locais disputam pontos; o CV percebe essas janelas de oportunidade e avança próximos à divisa com o Rio de Janeiro e em eixos do interior. Há ainda um componente geracional: novas redes formadas por jovens que não se vinculam à cultura e às regras do PCC mostram maior predisposição a alianças e conflitos com rivais. O resultado é a recomposição do mapa da criminalidade em áreas antes consideradas sob controle paulista, com potencial de escalada de violência e impacto direto na sensação de insegurança das comunidades afetadas.
Para o poder público, o episódio traz implicações claras. Primeiro, fragiliza a narrativa de controle exclusivo sobre a criminalidade em São Paulo e aumenta a pressão por respostas operacionais e de inteligência focadas no varejo de drogas e na prevenção da aliança entre jovens e organizações rivais. Segundo, expõe um vácuo institucional: a reportagem registra ausência de resposta da Secretaria de Segurança Pública aos pedidos de entrevista. Politicamente, o avanço do CV pode cobrar preço em meses e anos eleitorais, ampliando desgaste sobre gestores estaduais e municipais se a tendência se consolidar. A saída exige combinação de ações: ofensiva seletiva de inteligência, reforço na investigação sobre as cadeias de financiamento do crime e políticas locais para reduzir a atração das redes criminosas entre jovens.