No auge da ditadura, em 1976, um prédio erguido com verbas públicas para atender um déficit escolar em Foz do Iguaçu foi diretamente destinado à gestão privada. A Escola Politécnica — pensada para reduzir o número de crianças fora da escola na cidade — teve suas chaves entregues ao Colégio Anglo‑Americano dias antes da inauguração, por determinação da Secretaria de Educação do Paraná. O caso, narrado no projeto Perdas e Danos, revela um padrão de transferência de infraestrutura pública para interesses privados durante a construção da usina de Itaipu.

O episódio envolve contratos firmados entre o Anglo‑Americano, a binacional Itaipu e a Unicon, consórcio das empreiteiras responsáveis pela obra. No acordo, as empreiteiras, remuneradas com recursos públicos, garantiam um pagamento mínimo por vagas — inicialmente de 1.000 — enquanto a escola passou, no primeiro ano, a matricular mais de 10 mil alunos e, no pico, mais de 14 mil. As mensalidades, fixadas entre CR$ 300 e CR$ 500, eram pagas por Itaipu, eliminando o risco de inadimplência que aflige a maior parte das instituições privadas. Como comparação, uma creche pública no Rio cobrava CR$ 70 em 1975.

Testemunhos na apuração mostram o constrangimento das autoridades locais. O então inspetor de ensino do município recorda ter sido instruído por telefone a entregar o prédio ao dono do Anglo‑Americano, Ney Suassuna, suspendendo planos de uso público que já haviam sido anunciados à comunidade. Pesquisadoras que estudaram o projeto pedagógico de Itaipu classificam o arranjo como desvantajoso para a administração pública: infraestrutura, mobiliário e material pedagógico foram custeados por recursos públicos e repassados para que uma escola privada explorasse o serviço por décadas.

Os dados do caso expõem contradições que atravessam a história recente da política pública educacional: enquanto a retórica oficial invoca eficiência e parceria, o episódio de Foz do Iguaçu indica alinhamento entre poder público, grandes obras e interesses privados em detrimento do acesso universal e da gestão pública da educação. A transformação de verba estatal em receita garantida para uma escola privada estruturou um modelo de privilégio cujo legado contribuiu para a concentração do setor e para desigualdades de acesso.

Além do aspecto histórico, a narrativa lança um sinal de alerta institucional. A facilidade com que ativos e dinheiro públicos foram redirecionados sem transparência — em contexto autoritário — levanta questões sobre prestação de contas, fiscalização e os caminhos pelos quais políticas públicas são desenhadas em parceria com grandes empreiteiras. A reportagem do Perdas e Danos lembra que a origem de parte do ensino privado moderno no país tem raízes políticas e fiscais que merecem escrutínio quando se discute hoje responsabilidade fiscal, eficiência administrativa e equidade no acesso à educação.