A produtora Go Up entrou em contradição ao tentar explicar à revista piauí a origem de um documento cujo metadado indica autoria do advogado Paulo Calixto, ligado a Eduardo Bolsonaro e administrador do fundo Havengate. O arquivo teria sido criado cerca de duas horas antes de ser enviado à publicação, mas os sócios da empresa deram versões distintas: Michael Davis negou relação de Calixto com o filme ou com a produtora; Karina da Gama alternou entre supor uso de um arquivo pré-existente e afirmar que o conteúdo saiu da Go Up com informações de Calixto, para depois admitir não saber explicar por que o nome dele aparece nos metadados.
A inconsistência ganha peso político e investigativo porque Calixto comanda o Havengate, que recebeu milhões do banqueiro Daniel Vorcaro antes de repassar recursos para a produção. A apuração da piauí e a investigação da Polícia Federal apontam fluxo intermediado: valores saíram da Entre Investimentos, de Antonio Freixo Junior (conhecido como “Mineiro”), seguiram ao Havengate e então foram destinados ao filme. A soma apontada pela reportagem pode chegar a US$ 14 milhões, com a primeira transferência identificada em 13 de fevereiro de 2025, no valor de US$ 2 milhões.
A defesa da produção apresentou um laudo de perícia defensiva alegando que Dark Horse consumiu US$ 13.393.081,29 até 4 de junho de 2026 — precisamente o montante que teria vindo do Havengate. O problema é que esse documento não traz relação individualizada dos pagamentos, serviços prestados, datas nem beneficiários, o que deixa uma lacuna técnica nas contas. Em meio a esse vácuo documental, Flávio Bolsonaro afirmou que a prestação de contas havia sido apresentada e que o caso estaria encerrado, promessa cuja documentação pública não apareceu dentro do prazo divulgado.
As divergências de versão e a falta de detalhamento financeiro expõem contradições que acendem alerta sobre o trajeto dos recursos e complicam a narrativa oficial. Documentos americanos citam Eduardo Bolsonaro, em momentos distintos, como “produtor executivo” e “financiador”, o que amplia a relevância política da apuração. A Polícia Federal segue investigando se os valores foram integralmente aplicados no filme ou se parte permanece no fundo. O resultado dessas checagens terá impacto direto sobre o custo político para os envolvidos e sobre a confiança em explicações apresentadas até agora.