As mudanças climáticas colocaram a drenagem urbana no centro do debate sobre políticas públicas para cidades brasileiras. No livro Infraestrutura Urbana: Planejar e Projetar Cidades Mais Sustentáveis, a arquiteta e professora da Universidade de Brasília Maria do Carmo de Lima Bezerra reúne mais de três décadas de experiência para sinalizar que os alagamentos, enchentes e deslizamentos são sintomas de um modelo que privilegia a remoção rápida da água por tubulações. Com prefácio assinado pela ex-ministra Marina Silva, a obra traz uma crítica direta ao paradigma vigente e propõe alternativas práticas que recuperam funções ecológicas das áreas verdes.

O diagnóstico tem implicações políticas e fiscais. A insistência em grandes obras de drenagem — ampliar galerias e tubulações — resolve temporariamente pontos críticos, mas não enfrenta a raiz do problema: a impermeabilização crescente e a perda da capacidade de infiltração do solo. Para gestores públicos, a consequência é dupla: altos investimentos com eficácia limitada e exposição a novos episódios de inundação que amplificam desgaste e cobram preço político das administrações locais. Brasília é citada pela autora como exemplo típico, onde áreas verdes existem, mas foram descaracterizadas e deixaram de atuar como dispositivos naturais de retenção e recarga hídrica.

As alternativas propostas no livro seguem a lógica internacionalmente discutida de soluções baseadas na natureza: jardins de chuva, áreas permeáveis, infiltração localizada e infraestrutura verde integrada ao urbanismo. Além de reduzir alagamentos, essas intervenções têm potencial de diminuir custos de manutenção e ampliar resiliência hídrica das cidades, reaproveitando água no próprio território. A autora também aponta uma lacuna na formação de arquitetos e urbanistas: é preciso integrar conhecimento técnico de drenagem ao projeto urbano para que políticas e obras não caminhem em paralelo, nem se anulem.

Do ponto de vista de política pública, a mensagem é clara: manter a estratégia atual implica mais gasto e risco eleitoral; mudar exige reciclagem técnica, revisão de normas, instrumentos de financiamento e ação coordenada entre planejamento e obras. A transição não é apenas técnica, é política — e quem gestiona cidades terá de optar entre projetos caros e paliativos ou uma reforma mais estruturada que combine intervenções menores, eficiência fiscal e melhor serviço ao cidadão. Em Brasília e em outras capitais, o tempo para essa opção diminui à medida que eventos extremos se tornam rotina.