O debate sobre o fim da escala 6x1 e a redução da jornada ocupou a agenda da Câmara nesta semana, mas segue marcado por discordâncias que extrapolam o mérito técnico e têm potencial de gerar custo político ao governo. O relator da proposta, deputado Léo Prates (Republicanos-BA), confirmou consenso apenas sobre a adoção de dois dias de folga por semana, e anunciou que entregaria o relatório à Comissão Especial na segunda-feira (25/5) às 17h, com chance de votação até a sexta. A pauta tende a dominar as discussões do Congresso nos próximos dias.

A disputa política aparece clara na defesa de prazos: o PT quer redução imediata para 40 horas semanais no regime 5x2, sem perda salarial; já a oposição, liderada pelo deputado Cabo Gilberto (PL-PB), alerta para o risco de demissões e pressão inflacionária caso a mudança seja implementada de forma abrupta. Entre esses polos há interlocutores do governo que propõem um caminho intermediário — uma transição de três anos com corte imediato de uma hora na jornada — medida que busca reduzir o choque sobre setores que funcionam ininterruptamente.

A discussão tem também dimensão técnica relevante. Especialistas ouvidos no entorno do processo apontam vantagens em termos de saúde e produtividade, mas ressaltam custos operacionais para indústrias, comércio, saúde, logística e transporte. A advogada Elisa Alonso ressalta que prazos mais curtos atendem demandas por melhor qualidade de vida, mas podem obrigar empresas a reorganizar escalas, pagar mais horas extras ou contratar, pressionando a folha. O advogado Alessandro Vietri enfatiza o equilíbrio delicado entre proteção ao trabalhador e sustentabilidade econômica das empresas.

Além das divergências, há sinais preocupantes sobre a clareza do roteiro: o relator chegou a afirmar em seminário em Belo Horizonte que a medida entraria em vigor ainda este ano sem escalonamento, mas também vinculou a adoção dos dois dias de folga a 2026 — uma contradição que reforça a necessidade de precisão técnica e política. Se mal calibrada, a proposta pode transformar ganho simbólico em ônus concreto, criando fricção entre o governo e setores produtivos e ampliando custos políticos para quem estiver à frente da tramitação.