A Empresa Brasil de Comunicação (EBC) retirou do ar mais de 100 mil publicações que tratavam de temas políticos e governamentais em canais como Agência Brasil, TV Brasil, Rádio Nacional e perfis oficiais nas redes sociais. Segundo nota da Diretoria-Executiva, a medida integra ações do Grupo de Trabalho das eleições 2026 e visa adequar conteúdos às normas eleitorais aplicáveis durante o período de restrições. A EBC afirmou ainda que, após esse intervalo, os materiais serão novamente publicados. O Correio tentou contato com a empresa, sem resposta.

A decisão provocou reação imediata da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) e de sindicatos do DF, Rio e São Paulo, que classificaram a despublicação como censura. Em comunicado, as entidades disseram que a medida não tem precedentes e atenta contra a autonomia prevista na lei que criou a EBC, além de afetar o direito à informação da população. Ressaltaram que muitos dos materiais removidos já foram republicados por outros veículos, mas que a atitude representa um recuo institucional preocupante.

No centro da controvérsia está a interpretação jurídica da natureza da EBC: a empresa sustenta que atua dentro das restrições aplicáveis ao período eleitoral, seguindo orientações da Advocacia-Geral da União (AGU) e da Secretaria de Comunicação da Presidência (Secom). As entidades profissionais rebatem, argumentando que os veículos da EBC fazem comunicação pública — distinta da comunicação institucional de órgãos do governo — e, por isso, não deveriam ser submetidos à mesma lógica de remoção preventiva. Esse choque de interpretações abriu caminho para a disputa judicial anunciada pelas entidades.

Além do litígio jurídico, a operação acende alerta sobre o impacto político e institucional da medida. A despublicação em massa amplia desgaste sobre a imagem da EBC como meio público independente e complica a narrativa oficial de observância estrita da lei. A controvérsia tende a se transformar em teste para a proteção da pluralidade informativa no período pré-eleitoral e pode empurrar a disputa para os tribunais, com risco de novo entrave à já sensível relação entre comunicação pública, governo e sociedade.