O presidente Luiz Inácio Lula da Silva abriu, em Brasília, o 1º Fórum de Reitores Brasil-África e colocou a educação como ferramenta central de formação de consciência crítica e superação de desigualdades. No evento reunindo lideranças universitárias brasileiras e africanas, o chefe do Executivo fez um enquadramento político: a expansão do pensamento crítico, disse, representa um obstáculo à agenda da extrema direita.
Lula recuperou os cinco eixos apontados na Cúpula Celac-África — combate à fome, mudança do clima, transição energética, democratização da inteligência artificial e integração de cadeias produtivas — e defendeu que a educação é transversal a todos eles. Advertiu contra o que chamou de "colonialismo digital" e destacou que sem infraestrutura tecnológica adequada não será possível avançar em saúde, agricultura e educação.
No plano concreto, o governo anunciou duas linhas de financiamento no Plano Brasileiro de Inteligência Artificial: US$ 20 milhões para projetos conjuntos e US$ 10 milhões para uso de infraestrutura brasileira em apoio a pesquisadores da África e da América Latina. Também foram confirmados investimentos de R$ 47,4 milhões no programa Capes Move África, que prevê a vinda de 2,6 mil pós-graduandos africanos a partir de 2027, com 1,6 mil bolsas para mestrado sanduíche e 1 mil para doutorado sanduíche.
Representantes africanos reconheceram o histórico de cooperação — segundo o secretário-geral da Association of African Universities, o apoio brasileiro começou no primeiro governo Lula —, mas ressaltaram que ainda há trabalho a fazer para descolonizar currículos e aumentar pesquisa local. O anúncio de recursos e programas reforça o discurso de solidariedade Sul-Sul, mas escancara desafios práticos: infraestrutura digital, execução orçamentária e coordenação entre instituições serão determinantes para que as promessas se traduzam em resultados.
Politicamente, o fórum serve a dois propósitos: projeta o Brasil como parceiro estratégico do continente e produz dividendos simbólicos para a agenda externa do governo. Ao mesmo tempo, cria um parâmetro objetivo para cobranças futuras: se os recursos não forem desembolsados ou as vagas não forem efetivadas, a iniciativa pode virar foco de críticas sobre priorização e capacidade de gestão. Em suma, a retórica de soberania por meio da educação ganha substância apenas com entrega e execução.