O que até pouco tempo era pauta fechada de tecnólogos e especialistas passou a figurar como item estratégico na agenda dos presidenciáveis. Levantamento do Radar Governamental mostra que os cinco principais pré-candidatos incorporaram a inteligência artificial (IA) ao discurso de campanha, ainda que com prioridades e diagnósticos distintos: regulação, estímulo à inovação, modernização do Estado e uso da tecnologia em políticas públicas aparecem como pilares das propostas.
O diagnóstico do estudo expõe uma contradição clara no campo governista: apesar da resistência retórica do presidente — que tem demonstrado ceticismo público em relação à IA — o próprio governo federal lançou o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial, com a meta de investimentos na ordem de R$ 23 bilhões e iniciativas como a proposta de uma "nuvem soberana". Do lado opositor, Flávio Bolsonaro aposta na promessa de maior eficiência administrativa e critica regras que, em sua avaliação, podem virar censura às plataformas. Romeu Zema já faz uso prático da tecnologia em sua pré-campanha e tem histórico no Estado de Minas com portais que incorporam IA. Ronaldo Caiado apresenta credenciais técnicas: implantação de um centro de excelência e investimento de R$ 720 milhões em Goiás, além de legislação estadual pioneira. Renan Santos concentra-se em trazer IA para o SUS, mas alerta — com razão — para o risco de perda de empregos e a necessidade de políticas para gerar trabalho nas regiões mais vulneráveis.
A convivência entre discurso e ação pública é um dos pontos que mais chama atenção. O plano federal, com linguagem pró-IA "para o bem de todos", convive com posturas que vão do ceticismo à estratégia explícita de uso eleitoral e administrativa. Politicamente, isso cria oportunidades e riscos: para o governo, há o potencial de capitalizar medidas técnicas; por outro lado, a incoerência entre o discurso crítico e o investimento robusto pode ser explorada pela oposição como sinal de falta de narrativa clara. Para adversários, a IA vira tema que permite criticar o Estado ineficiente ou propor soluções de gestão, o que tende a polarizar propostas entre mais regulação e maior liberalização/uso em serviços públicos.
As implicações vão além do marketing de campanha. Do ponto de vista institucional, a discussão impõe a necessidade de normatização clara sobre responsabilização em casos de erro ou manipulação, critérios de uso em segurança pública e saúde, e a arquitetura pública de dados — daí a relevância da proposta de nuvem soberana. Em termos econômicos e sociais, o alerta sobre desemprego setorial, levantado por Renan, coloca na agenda a urgência de políticas de requalificação e investimento regional. Há também um componente fiscal: promessas de investimentos vultosos exigem detalhamento sobre fontes e prioridades, principalmente num cenário que exige responsabilidade fiscal. Em ano eleitoral, apresentar planos plausíveis será decisivo para transformar intenção em confiança.
O levantamento do Radar Governamental revela que a IA já deixou de ser mera novidade tecnológica e passou a ser instrumento de disputa. Para 2026, o tema tende a testar a capacidade dos candidatos de traduzir propostas em projetos viáveis, responder a riscos — desinformação, desemprego, falhas em serviços — e construir uma narrativa coerente entre discurso e ação pública. Quem conseguir articular regulação inteligente, metas de investimento transparentes e garantias de proteção social ganha vantagem; os demais correm o risco de ver a pauta virar ponto de desgaste técnico e político.