O ministro do Supremo Tribunal Federal Flávio Dino apontou, em decisão recente, uma possível irregularidade na destinação de uma emenda parlamentar de R$150 mil indicada pela deputada Bia Kicis (PL-DF) a um projeto da Academia Nacional de Cultura (ANC). A substância da observação de Dino é a “aparente desconformidade com a exigência de absoluta vinculação federativa”: Kicis, eleita pelo Distrito Federal, indicou o recurso para um projeto em São Paulo, que seria intermediado pelo governo estadual. Segundo os autos, o valor até hoje não foi repassado por entraves normativos e técnicos que impediram a assinatura do termo de parceria.
A ANC é presidida por Karina Ferreira da Gama, sócia da Go Up Entertainment, produtora do filme Dark Horse — cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro — e mencionada em investigação que envolve o deputado Mário Frias (PL-SP). Flávio Dino também citou movimentações registradas em relatório do Coaf: R$3,43 milhões transitaram na conta vinculada à deputada entre maio de 2025 e maio de 2026, embora o documento ressalte que Kicis não era foco da análise; o relatório foi incluído por registrar uma transferência de R$500 feita por Mário Frias. Importante: a parlamentar não foi alvo das medidas cautelares aplicadas a outros investigados no caso.
Em nota, Kicis afirmou que a única emenda de sua autoria para produção audiovisual foi a de R$150 mil, destinada a três episódios de caráter histórico-educativo, e que o recurso sequer foi pago. Segundo a deputada, em 20 de maio de 2026 ela pediu o cancelamento da indicação e avaliou redirecionar a verba ao Hospital de Amor de Barretos (SP). Kicis negou irregularidade e afirmou que atuou dentro dos princípios da administração pública, repetindo que a aplicação não se consumou.
Do ponto de vista político, o episódio acende alerta para a campanha de Kicis ao Senado. Ainda que não haja, por ora, medidas contra a parlamentar, a proximidade com empresários e políticos sob investigação cria um problema de percepção: opositores e rivais podem explorar a conexão entre emendas, produtores e parlamentares para questionar critério e diligência na indicação de recursos. O caso, por enquanto, é um retrato de indícios e vínculos que exige documentação e clarificações públicas; não configura prova de ilícito, mas complica a narrativa de transparência que uma candidatura à alta exposição eleitoral precisa sustentar.