Em debate promovido pelo Correio nesta terça-feira, a empresária Isabela Raposeiras, CEO do Coffee Lab e consultora do setor de alimentos e bebidas, afirmou que a escala 6x1 gera desgaste físico, alta rotatividade e custos que, na prática, não se confirmam para todos os empregadores. A posição, segundo ela, nasce tanto da experiência como empregadora quanto da trajetória como funcionária em setores como hospitalidade e comércio.
Raposeiras contestou estimativas patronais que projetam aumento expressivo de despesas com a redução da jornada e afirmou não observar esse reflexo no dia a dia de sua empresa. Citou o manifesto assinado por mais de 10 mil empresas favoráveis ao fim da 6x1 e relatou que a adoção da jornada 4x3 no Coffee Lab trouxe queda acentuada no absenteísmo — hoje em 0,6% — e redução de gastos ligados a demissões e ausências. Segundo ela, algumas empresas enfrentam rotatividade superior a 100% e despesas com desligamentos que podem chegar a 15% da folha.
O relato expõe uma contradição no debate público: enquanto entidades patronais advertem custos maiores, relatos empresariais como o de Raposeiras sugerem economia operacional ao flexibilizar escalas. Esse descompasso tende a ampliar o desgaste político entre sindicatos, empresários e Legislativo, forçando o governo a buscar dados mais robustos antes de adotar regras nacionais. Para setores complexos como o varejo de alimentos — que combinam produção, atendimento e serviços — a experiência prática vira argumento político de peso.
Mais do que argumentos de conveniência, a fala da empresária sinaliza mudança nas expectativas do mercado de trabalho e pressiona atores públicos a incorporar evidências sobre efeitos reais da jornada. A discussão, portanto, avança do campo ideológico para a arena pragmática: exige que empregadores apresentem estudos detalhados e que legisladores considerem a experiência operacional como insumo para qualquer mudança normativa.