Pela segunda vez em menos de quinze dias, agentes da Polícia Federal voltaram ao endereço do ex-governador do Rio de Janeiro Cláudio Castro. Na oitava fase da operação conhecida como Compliance Zero, equipes cumpriram mandado de busca e apreensão em um apartamento de alto padrão na Barra da Tijuca e recolheram dois celulares. A ação foi autorizada pelo ministro do Supremo Tribunal Federal André Mendonça, relator do inquérito que investiga a maior fraude financeira detectada no país em fundos de previdência estaduais.

Os autos da investigação revelam algo que aumenta substancialmente o escopo do caso: os repasses do Rioprevidência ao chamado Master seriam muito maiores do que os cerca de R$970 milhões conhecidos até então. A apuração da Polícia Federal aponta transferências que totalizam R$3,7 bilhões. Mais do que números, os investigadores destacam o caráter da relação entre o banqueiro Daniel Vorcaro e alguns políticos — descrevem um alinhamento político e um vínculo pessoal que, segundo a PF, facilitaram negócios em prejuízo dos aposentados.

As informações reunidas pela PF indicam sincronismo entre encontros e aportes financeiros do fundo, e sugerem que o contato frequente, inclusive em eventos privados custeados por Vorcaro, funcionava como instrumento para consolidar vantagem mútua. Esse padrão — a intimidade como mecanismo de acesso a decisões institucionais — retorna em diferentes capítulos da investigação e configura um modus operandi que extrapola o campo técnico e atinge o terreno político.

Do ponto de vista político, o desdobramento é claro: a nova fase da Compliance Zero amplia o desgaste sobre Castro e reduz as chances de recuperar um arco narrativo eleitorais que já vinha abalado. A renúncia do ex-governador antes do julgamento no Tribunal Superior Eleitoral, uma tentativa de preservar direitos políticos, agora enfrenta objeções práticas diante das evidências reunidas. Para o PL fluminense, o caso virou fonte de embaraço público, somando-se à repercussão da relação de Vorcaro com outros nomes da política nacional.

Mais amplo, o efeito institucional também merece atenção: a dimensão financeira apurada levanta sinais de alerta sobre a governança de recursos previdenciários e sobre a capacidade de controles internos e externos. A sucessão de fases da operação indica que a investigação pode alcançar novos atores e produzir efeitos relevantes na esfera política e administrativa. Em termos práticos, o caso pressiona partidos e autoridades a explicarem omissões e adota medidas concretas para reparar riscos fiscais e restaurar confiança dos contribuintes e beneficiários.