A cinco meses das urnas, o escândalo Master deslocou radicalmente o foco da pré-campanha oposicionista. Flávio Bolsonaro, até então apontado como o rival mais competitivo ao incumbent, passou a responder a perguntas sobre repasses milionários e a conviver com versões contraditórias sobre o destino de recursos — incluindo menções ao filme Dark Horse. A sequência de negações e ajustes de narrativa instalou um clima de desconfiança que não se apaga com articulações internas: a reunião desta segunda-feira com a cúpula do PL em Brasília é leitura direta dessa necessidade urgente de controle de danos.
Os efeitos práticos já se manifestam. A Operação Compliance Zero e as investigações da Polícia Federal colocaram no centro da cena não só o bolsonarismo, mas também atores do Centrão que mantinham laços com o banqueiro Daniel Vorcaro. Antes de Flávio, Ciro Nogueira foi alvo de medidas que reabriram o debate sobre a chamada 'emenda Master' — proposta que, segundo a apuração, ampliava o limite do Fundo Garantidor de Crédito de R$ 250 mil para R$ 1 milhão e teria relação direta com interesses do próprio Banco Master. Para a oposição, o custo é claro: a narrativa de combate à corrupção perde verve quando seus protagonistas aparecem enredados nas mesmas transações bilionárias alvo da PF.
Do lado governista, por ora, não há provas que liguem o presidente Lula às manobras financeiras de Vorcaro, mas o caso reverbera em outra dimensão sensível: o Judiciário. As relações comerciais atribuídas ao banqueiro com pessoas próximas a ministros do STF alimentaram uma reação política que já vinha se organizando em torno de um bloco disposto a avançar em pautas contra o tribunal. Além disso, o episódio de dezembro de 2024 — com a reunião que envolveu Rui Costa, Alexandre Silveira e Gabriel Galípolo, então designado para o Banco Central — tornou-se peça de interpretação pública e parlamentar, mobilizando defensores e críticos em igual intensidade.
Politicamente, o saldo para 2026 é de complicação e oportunidade simultâneas. Para Flávio, o desgaste abre uma janela de risco que pode traduzir-se em perda de base eleitoral, dificuldade de atração de aliados e retração de recursos de campanha — elementos decisivos em uma disputa ainda indefinida. Para o campo governista, a cena representa vantagem tática, mas também risco, já que o aprofundamento das apurações pode realimentar acusações cruzadas e ampliar o debate sobre influência e conflito de interesses. Em suma: a corrida presidencial passa a medir, mais do que propostas, a capacidade de atores e partidos escaparem ilesos das investigações e da possível delação premiada do banqueiro — um teste de resistência reputacional que pode redesenhar alianças e estratégias até o voto.