A leitura sociológica proposta por Émile Durkheim — que distingue o crime como fato social 'normal' do que se torna patologia — ajuda a entender a nova dimensão do problema que atravessa o governo Lula. No Brasil, facções como o PCC e o Comando Vermelho deixaram de ser apenas grupos envolvidos com o tráfico para conquistar capacidades de controle territorial, penetração econômica e influência política locais. Essa transformação passa de desafio operacional para risco institucional: onde facções impõem regras à população, a autoridade do Estado fica parcial ou totalmente comprometida.
Os números recentes ilustram essa gravidade. Apesar de uma redução de 8,2% em relação a 2024, o país registrou 40.775 mortes violentas intencionais em 2025 — mais de 110 óbitos por dia, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública — um patamar que sinaliza áreas onde a ordem pública ainda não se sustenta. Paralelamente, o Ministério da Justiça aponta avanços pontuais: 336,4 toneladas de drogas apreendidas e um impacto estimado de R$ 7,6 bilhões sobre as finanças das organizações criminosas. A ofensiva do governo — com o programa Brasil Contra o Crime Organizado e investidas sobre o ingresso das facções na economia formal — mostra capacidade de reação, mas apreensões e operações isoladas não necessariamente reduzem o poder territorial dessas redes.
No plano internacional, a mudança de tom de Washington agrava o cenário. Em maio, o governo de Donald Trump classificou PCC e CV como organizações terroristas, e a proposta do Escudo das Américas prevê sanções a facções regionais em um bloco de 14 países que, por ora, não inclui o Brasil. Essa estratégia converte combate ao crime organizado em critério de alinhamento político e amplia a margem de pressão diplomática sobre Brasília. Para o governo Lula, a decisão americana tem um efeito duplo: reforça a necessidade de cooperação hemisférica em segurança e, ao mesmo tempo, expõe uma vulnerabilidade — a incapacidade de demonstrar, em curto prazo, redução efetiva do domínio territorial das facções.
Há ainda um fator político-institucional que limita respostas mais coordenadas: a proposta de criação do Sistema Único de Segurança Pública e de um ministério dedicado esbarrou na resistência de governadores oposicionistas e segue sem aprovação pelo Congresso. A ausência dessa arquitetura federal robusta dificulta ações integradas e oferece terreno para críticas da oposição e para a narrativa externa de que o Brasil não conduz um combate abrangente ao crime organizado. Em resumo, o governo mostra capacidade operacional, mas padece de ferramentas institucionais e de consensos federativos necessários para traduzir apreensões em perda real de poder das facções.
O resultado prático é uma combinação perigosa de percepção e realidade: por um lado, medidas de impacto e apreensões significativas; por outro, um quadro em que o controle territorial e a influência econômica das redes persistem. Politicamente, isso complica a narrativa oficial de melhoria da segurança e amplia espaço para pressão tanto interna quanto externa. A resposta exigida passa por acelerar pactos federativos, avançar na estrutura legal e administrativa proposta e demonstrar resultados sustentáveis — não só em toneladas apreendidas, mas em controle de ruas, instituições locais e governança nas áreas mais afetadas.