A decisão do Departamento de Estado dos Estados Unidos de incluir o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) na lista de Organizações Terroristas Estrangeiras, em vigor desde 5/6, acende alerta para efeitos colaterais que vão além da retórica punitiva. Para o criminologista Nikos Passas, professor da Northeastern e com histórico de colaboração em convenções internacionais contra o crime transnacional, a medida tem potencial para ampliar o desgaste político do governo brasileiro e, paradoxalmente, fortalecer as facções se faltarem coordenação e ações práticas entre os dois países.

Passas lembra que historicamente medidas punitivas sem alinhamento internacional e operacional tendem a estimular adaptação: organizações criminosas buscam aconselhamento jurídico e financeiro sofisticado, redesenham suas rotas de financiamento e fragmentam estruturas para reduzir riscos. Em termos práticos, isso pode traduzir-se em operações mais discretas, uso de poros financeiros complexos e expansão para novas jurisdições — fatores que dificultam investigação e repressão mesmo com a ferramenta simbólica da designação.

Politicamente, a inclusão das facções na lista americana foi recebida como derrota pelo governo Lula, que se posicionou contra a medida alegando risco à soberania e distinção legal entre crime organizado e terrorismo. A decisão saiu um dia após a visita a Washington do senador Flávio Bolsonaro, fato que dá tom partidário ao episódio e pode ser explorado pelas próprias facções como prova de instrumentalização política. Essa narrativa complica a árvore de ações: rotular sem operacionalizar cooperação bilateral pode ampliar a sensação de impotência estatal e fornecer à ofensiva das organizações espaço para capitalizar politicamente.

O diagnóstico do especialista é claro sobre o caminho necessário: etiquetas isoladas não bastam. A eficácia passa por investigação conjunta, controles financeiros, trocas de inteligência e alinhamento jurídico entre Brasil e Estados Unidos. Sem isso, a medida corre o risco de ser sobretudo declaratória, com custos políticos internos — pressão sobre o governo, questionamento de soberania e reforço da oposição — e custo prático ao enfraquecer, em vez de reduzir, o poder das facções. O desafio agora é transformar a lista em ferramentas operacionais que façam sentido no terreno, evitando que a ação americana, bem-intencionada ou não, acabe beneficiando os alvos que pretende neutralizar.