Uma proposta enviada pelos Estados Unidos ao governo brasileiro no ano passado incluía exigências que, segundo diplomatas ouvidos, tocaram em pontos sensíveis da vida institucional e eleitoral do país. O documento chegou ao ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, em 16 de outubro, quando ele estava em Washington para encontros de preparação com integrantes do primeiro escalão americano; a reportagem do Estado de S. Paulo revelou o conteúdo, confirmado pelo Correio.
Entre as condições apresentadas estavam a garantia de participação de 'dissidentes políticos' nas eleições de 2026, a compra de aeronaves da Boeing por companhias brasileiras e um direito de preferência para empresas americanas na aquisição de jazidas de minerais críticos. O texto também mencionava aspectos do chamado princípio da neutralidade competitiva, a regulação dos meios de pagamento eletrônico — incluindo o Pix — e a retirada de tarifas de importação sobre diversos produtos fabricados nos EUA.
Nos bastidores do Itamaraty a proposta foi tratada com rejeição imediata. Diplomatas classificaram o documento como uma forma de 'bullying diplomático' e avaliaram que parte das solicitações era incompatível com a legislação brasileira ou extrapolava a esfera de decisão do Executivo — por isso, nas palavras de interlocutores, o documento 'nasceu morto'. Uma das críticas centrais foi justamente a referência a 'dissidentes políticos', termo que, segundo assessores, não tem respaldo jurídico em uma democracia e não poderia ser objeto de garantias por parte do governo.
Do ponto de vista político, o episódio acende um alerta sobre os limites entre interesses comerciais e prerrogativas de soberania. A exigência de interferir em processos eleitorais ou garantir vagas para grupos específicos extrapola negociações econômicas e pode ser explorada em debates internos sobre autonomia do país. Ainda que a proposta não tenha sido levada às mesas formais de negociação entre as equipes de ambos os países e não tenha reaparecido nas rodadas seguintes, o vazamento expõe desconforto e cria material político que tende a complicar a narrativa governista em ano pré-eleitoral.
Na esfera econômica, condicionamentos à compra de aeronaves ou preferência em ativos minerais tocam diretamente na autonomia de empresas e em preocupações estratégicas sobre recursos críticos. Condicionar um acordo comercial à aquisição de bens por companhias privadas conflita com a liberdade de mercado; exigir preferência em jazidas levanta questões de segurança e soberania sobre ativos estratégicos. O governo brasileiro, conforme interlocutores, rejeitou os termos apresentados, sinalizando que avanços na agenda comercial terão de respeitar limites legais e institucionais.