Uma pesquisa nacional do Instituto de Estudos da Religião (Iser) em parceria com a Quaest, baseada em 15 mil entrevistas presenciais realizadas em 412 municípios entre janeiro e fevereiro, revela contradições que redesenham a relação entre fé e poder. Embora evangélicos continuem sendo alvo prioritário de campanhas e estratégias eleitorais, a maioria dos fiéis diz não aceitar a instrumentalização das igrejas: 83% rejeitam indicação de voto por pastores e padres, 82% rejeitam debate político em cultos e missas, e 90% são contra campanhas eleitorais dentro dos espaços religiosos.
O dado expõe um desafio prático e eleitoral para 2026. Partidos e candidatos que apostam em transformar templos em palanques correm o risco de provocar reação interna e perda de apoio local. Relatos de pastores que perderam membros após campanhas abertas — ponto observado por entrevistados como o pastor Lucas Oliveira, entre outros — confirmam que o custo pode ser irreversível para lideranças que assumem posicionamentos partidários. Em vez de votos automáticos, a aposta em exposição direta nas igrejas tende a gerar divisão comunitária e desgaste político.
Ao mesmo tempo, o levantamento não significa desocupação do terreno religioso pela política. A pesquisadora do Iser indicada no levantamento assinala que a influência hoje se dá com mais sutileza: mediação de valores, formação de identidade e presença pública de líderes que operam fora do altar — na mídia, nas redes e no Parlamento. Além disso, a pesquisa aponta que a indicação de voto é concentrada em algumas denominações, como Universal, Quadrangular e assembleias de Deus, o que aponta que o impacto eleitoral é heterogêneo e depende do espaço público ocupado por líderes específicos.
Para a campanha que se aproxima, a lição é clara: a política precisa disputar além do templo e com estratégias que respeitem a pluralidade interna das comunidades religiosas. O uso explícito de igrejas como palanque pode rendimentos eleitorais limitados e custos políticos reais — perda de fiéis, desgaste de lideranças e repercussão negativa nas redes. Ao mesmo tempo, a influência pública de determinados pastores permanece um ativo relevante e menos previsível, exigindo dos candidatos abordagens mais finas e menos centralizadas na tentativa de converter visibilidade religiosa em votos.