A troca de defesa do ex-presidente do Banco de Brasília, Paulo Henrique Costa, acendeu um novo capítulo na investigação sobre o esquema BRB-Master. Preso no Complexo da Papuda desde 16 de março no bojo da Operação Compliance Zero, Costa dispensou o advogado Cléber Lopes e passou a ser assistido por Eugênio Aragão — ex-ministro da Justiça com histórico em acordos de colaboração — e por Davi Tangerino. Aragão confirmou ao Correio que assumiu o caso, mas disse não ter ainda conversado com o cliente, evitando confirmar a intenção formal de buscar delação premiada.
Fontes ouvidas pela reportagem apontam que, caso Costa opte por colaborar, a estratégia provável será apresentar documentos, mensagens e evidências que conectem gestores e autoridades que estariam em posição hierarquicamente superior. Entre os nomes citados nas apurações está o do ex-governador do Distrito Federal Ibaneis Rocha, cuja condição de acionista majoritário do BRB e poder de decisão em negociações com o Master o torna peça relevante para os investigadores. Em contraste, Ibaneis nega ter participado de reuniões ou tratativas relacionadas à aquisição do Master.
O caso ganhou contornos adicionais após o ex-presidente Michel Temer admitir ter participado de um encontro em que estariam presentes, segundo sua versão, o então governador e Costa — encontro que, afirmou, ocorreu antes da liquidação e envolveu consultoria e mediação por parte de Temer. Do ponto de vista processual, a prisão preventiva de Costa segue sob análise da Segunda Turma do Supremo Tribunal Federal em julgamento virtual que se encerra nesta sexta-feira. Enquanto isso, a Polícia Federal diz não ter recebido, até o momento, procura formal de Costa ou de seus advogados para iniciar tratativas de colaboração, embora a corporação registre manifestações nesse sentido por outros detidos, como o advogado do Master, Daniel Monteiro, preso em São Paulo.
Politicamente, a hipótese de delação por parte de uma figura central do esquema eleva o risco de contaminação a governadores, ex-gestores e auxiliares, com efeito direto sobre narrativas de responsabilidade e sobre a estabilidade de alianças locais. Para a investigação, a colaboração poderia acelerar o desdobramento de provas; para os alvos potenciais, seria um momento de exposição pública e pressão judicial. Resta, contudo, aguardar movimentos formais — pedido de colaboração, entrega de provas ou decisão do STF sobre a prisão — antes de qualquer conclusão sobre desdobramentos e culpabilidades.