O diagnóstico do professor Pablo Holmes, da Universidade de Brasília, é direto e aponta para um fator estrutural: o desenho institucional do Supremo Tribunal Federal facilita o protagonismo individual de ministros, um elemento que, combinado com a polarização política recente, acaba por ampliar o desgaste institucional. Em conversa no podcast do Correio, Holmes situou a crise atual como resultado de um processo acumulado — que extrapola nomes ou episódios isolados — e fragiliza a confiança da sociedade no Judiciário.
Segundo o pesquisador, o poder concentrado nas mãos de magistrados que decidem de forma isolada aumenta o risco de decisões que parecem responder a interesses próprios ou a pautas políticas. Esse deslocamento do centro da política para o tribunal — e a incapacidade interna da Corte de gerir esse protagonismo — cria um ciclo em que a própria legitimidade da instituição é usada como moeda em disputas externas. Processos recentes, como os ligados ao Banco Master, e as tensões internas das últimas semanas ilustram, na avaliação de Holmes, como a confiança pública pode ser rapidamente abalada.
O cerne do argumento é político e institucional: em democracias sólidas, a percepção de imparcialidade e colegialidade do tribunal é um pilar da estabilidade. Quando ministros assumem papéis que se aproximam de atores políticos, abre-se espaço para acusações de parcialidade e para narrativas que descrevem o Judiciário como um ator excessivamente poderoso — rotulação que, em outros países, precedeu tentativas de captura institucional. Para Holmes, os beneficiários de um enfraquecimento da confiança são atores interessados em concentrar poder e reinterpretar a Constituição em benefício próprio, situação que ameaça direitos de minorias e o equilíbrio entre os poderes.
Sobre reformas, o professor se diz cético em relação a soluções simplistas, como eleições diretas para a nomeação de ministros, e adverte que mudar o processo seletivo por si só não elimina influências políticas e econômicas. A proposta que se impõe, na visão dele, não é um conserto mecânico do formato de escolha, mas a criação de salvaguardas institucionais que reduzam a suscetibilidade do Supremo às pressões externas e ao protagonismo individual. Para o debate público e para os setores políticos, o recado é claro: sem reformas discretas e técnicas que recuperem a colegialidade e a transparência, a crise atual tende a repercutir com custo político e institucional crescente.