A sucessão de revezes do presidente Luiz Inácio Lula da Silva no Congresso, concentrada na última semana, tornou público um problema que vinha se acumulando desde o início do mandato: a fragilidade da articulação política entre o Planalto e os parlamentares. Dois episódios que ganharam maior visibilidade — a rejeição do indicado para o Supremo e a derrubada de veto a projeto controvertido sobre dosimetria de penas — funcionaram como um termômetro da dificuldade do governo em transformar acordos informais em votos concretos nas duas Casas.

O caso da indicação para o Supremo chamou a atenção pelo erro de cálculo: a equipe de articulação trabalhava com uma expectativa de aprovação entre 41 e 45 votos, mas o indicado obteve apenas 34. No dia seguinte, o Congresso também rejeitou o veto a um projeto que reduz penas para crimes ligados à tentativa de golpe, o que tornou a sequência de derrotas ainda mais simbólica. Esse conjunto de resultados agrava a percepção de perda de controle político e gera um custo político imediato para a imagem do governo perante aliados e adversários.

A incapacidade de converter diálogo em resultado é atribuída, publicamente, à coordenação da Secretaria de Relações Institucionais e à liderança governista no Senado. José Guimarães e o líder Jaques Wagner passaram a ser responsabilizados por falhas de articulação, num quadro em que nomes que ocuparam a SRI anteriormente também enfrentaram críticas — Alexandre Padilha, por exemplo, foi remanejado ao Ministério da Saúde após embates com o Congresso. Em 2025, a deputada Gleisi Hoffmann chegou a assumir a SRI e recebeu elogios iniciais pela disposição ao diálogo; ainda assim, a boa vontade se mostrou insuficiente, como demonstrou a surpresa do Planalto na formação da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito do INSS, em que a presidência e a relatoria ficaram com representantes da oposição.

A reação ao desgaste tem também um componente de retaliação e disputas por cargos: há quem defenda medidas contra o presidente do Senado, que passou a adotar postura menos próxima ao Executivo, e menções à influência em indicações a estatais e ministérios. Esses movimentos, porém, podem aprofundar a atomização das negociações e dificultar uma retomada de credibilidade na interlocução com o Congresso. Para além da bronca imediata, o episódio revela que o governo precisa revisar sua estratégia de engenharia política — sem uma articulação mais robusta e previsível, a capacidade de garantir governabilidade e aprovar agendas importantes fica seriamente comprometida.