A venda de uma fazenda de 2.410 hectares no município de Pedro II (PI) por R$ 18,7 milhões a uma offshore sediada nos Emirados Árabes Unidos acendeu um novo foco de pressão política sobre o senador Ciro Nogueira (PP-PI). A transação, formalizada em 27 de março de 2025 pela empresa Fazendas Reunidas Nogueira Lima, coincide temporalmente com valores que, segundo a Polícia Federal, teriam sido transferidos ao parlamentar pelo ex-banqueiro Daniel Vorcaro, apontado como um dos responsáveis pela maior fraude bancária em apuração pela investigação.
Reportagem da Folha de S.Paulo e documentos da negociação consultados pela polícia mostram que a compradora é a Arraf International, com endereço em uma caixa postal na zona franca do aeroporto de Sharjah — área apontada como paraíso fiscal e próxima a Dubai —, e que a offshore foi constituída cerca de dois meses antes do fechamento do negócio. A empresa ligada a Nogueira que intermediou a venda é administrada pelo advogado Gustavo Frazão, identificado como responsável pela negociação internacional.
As coincidências de calendário entre os repasses que a PF diz ter identificado — cerca de R$ 6 milhões entre 2024 e 2025 e repasses mensais que a investigação cita como da ordem de R$ 300 mil — e a operação da venda colocam questões práticas e políticas que o senador precisa esclarecer. Em 7 de maio a Polícia Federal deflagrou operação contra Nogueira no entorno das apurações sobre o Banco Master; o episódio já representa desgaste às vésperas de debates sobre proporcionalidade, transparência e a relação entre recursos privados e atuação legislativa, notadamente sobre emendas e medidas que beneficiariam o setor financeiro, como a ampliação do Fundo Garantidor de Crédito (FGC).
A assessoria do senador disse à reportagem que nem ele nem familiares possuem empresas fora do país e que a Fazendas Reunidas Nogueira Lima pertence à sua mãe, Eliane Nogueira, além de negar irregularidades. O Correio tentou contato com a assessoria e com o advogado Gustavo Frazão, sem retorno; a PF mantém investigação em andamento e Vorcaro está preso. Os fatos divulgados até agora não configuram condenação, mas elevam a necessidade de transparência documental e explicações sobre origem dos recursos e critérios que nortearam a venda.
Politicamente, o caso amplia o desgaste de Nogueira e cria risco de contaminação para o PP, ao alimentar narrativas sobre uso de estruturas offshore para movimentações patrimoniais de parlamentares sob investigação. Municípios, eleitores e atores do mercado aguardam respostas objetivas: demonstrar que a operação foi regular e que não houve correlação imprópria entre repasses e atuação parlamentar é urgente para reduzir o custo político e institucional deste episódio. A ausência de esclarecimentos tende a fortalecer a percepção de opacidade e a complicar a articulação política em Brasília.