O Senado aprovou por 75 a 1 a PEC que acaba com a escala 6x1 e reduz a jornada máxima em duas etapas — de 44 para 42 horas, 60 dias após promulgação, e depois para 40 horas 14 meses depois. Para trabalhadores em regime 6x1, a mudança representa uma alteração concreta na rotina; para a política, é um resultado com forte carga simbólica que reforça uma bandeira do governo e redesenha o debate sobre proteção social e custo da mão de obra.

A decisão tem rosto: Luciana, 36 anos, operadora de caixa no Rio, conta que acorda às 5h, deixa as filhas na escola e depois enfrenta até 1h30 de transporte para chegar ao trabalho em Campo Grande. Com um dia de folga por semana, sobra pouco tempo para cuidar da casa, descansar ou acompanhar os filhos. Ao comemorar a aprovação, ela diz esperar mais tempo com as crianças e alívio físico e mental — ao mesmo tempo em que vive a incerteza sobre como a empresa onde trabalha vai reorganizar escalas.

No fim de 2025, o Ministério do Trabalho estimava que 14,8 milhões de empregados ainda seguiam o regime 6x1. A transição prevista pela PEC cria uma janela de adaptação, mas também impõe custos operacionais às empresas e pressão por negociações coletivas sobre horários e bancadas de pessoal. No campo político, a votação expõe uma convergência estratégica: a proposta foi abraçada pela campanha de reeleição do presidente e teve adesão do senador Flávio Bolsonaro, que havia criticado a iniciativa e agora justificou o voto afirmando representar a preferência de trabalhadores.

A promulgação, que depende de sessão solene das Mesas da Câmara e do Senado, será o próximo passo para transformar o texto em regra constitucional. A partir daí, além do impacto imediato na vida de mães solo e de trabalhadores exaustos, a medida tende a reconfigurar a agenda legislativa: setores do centrão já sinalizaram que vão tentar compensações, como propostas de jornada mais flexível. Para quem vive a mudança no dia a dia, porém, a promessa é simples e concreta — ganhar tempo com a família e, segundo Luciana, não ver mais a infância dos filhos passar enquanto trabalha.