A economista e ex-ministra Dorothea Werneck disse, em entrevista ao Podcast do Correio, que o fim da escala 6 x 1 pode ter efeito oposto ao temor ventilado por setores do empresariado: em vez de reduzir vagas, abriria espaço para novas contratações. A avaliação, feita pouco depois do lançamento de seu segundo livro, contrapõe a reclamação de perda de produtividade, risco de demissões e aumento de custos com a tese de que jornadas mais curtas redistribuem trabalho entre mais pessoas.
Werneck sustenta que, como o número de oportunidades é limitado, diminuir dias trabalhados por empregado tende a criar demanda adicional por mão de obra, cenário que ganharia força caso a PEC da redução de jornada seja aprovada. Além da lógica econômica, ela enfatiza o lado humano da mudança: maior disponibilidade para convívio familiar e vida pessoal — um argumento com apelo político diante das reivindicações por qualidade de vida no trabalho.
A ex-ministra também relacionou a mudança às transformações geracionais e tecnológicas. Segundo ela, a geração Z escolhe empregador e valoriza ambientes que privilegiam autonomia e inovação; regimes rígidos, diz, inibem criatividade. No plano tecnológico, Werneck avaliou que a inteligência artificial exige operadores bem formados — “quanto melhor a pergunta, melhor a resposta” — e, portanto, não necessariamente promoverá perda massiva de empregos, mas pressionará por qualificação.
O pronunciamento tende a reforçar o embate entre defesa de direitos e alertas do setor produtivo sobre custos. Se a PEC avançar, provocará negociações concretas sobre ritmo de implementação, impacto setorial e necessidade de políticas de capacitação para lidar com a incorporação da IA. A opinião de uma figura com trânsito técnico como Werneck pode pesar no debate público e político, forçando governo, parlamentares e empresários a traduzirem cálculos técnicos em respostas práticas para o mercado e para a sociedade.