No painel do CB Debate realizado em 26 de maio, a procuradora do Trabalho Carolina Mercante classificou como "oportunidade histórica" a chance do Parlamento avançar sobre o fim da escala 6x1. Para o MPT, a revisão normativa não é apenas uma pauta trabalhista: trata-se de repensar relações de trabalho à luz da Constituição, combinando livre iniciativa com proteção da dignidade humana.
Mercante vinculou diretamente a jornada 6x1 a maiores riscos de acidentes e adoecimento. Citou estudos que atribuem cerca de 30% dos adoecimentos ocupacionais a jornadas superiores a 40 horas e listou problemas associados — fadiga crônica, estresse prolongado, doenças cardiovasculares, distúrbios gastrointestinais, síndrome de burnout, ansiedade e depressão. O MPT também observou que muitos afastamentos são curtos (cerca de 10 a 12 dias) porém recorrentes, o que onera a previdência e eleva custos operacionais do setor privado.
A procuradora ressaltou repercussões sociais: mais tempo para o cuidado familiar tende a reduzir o trabalho infantil e melhorar desempenho escolar, e a redução da jornada pode favorecer a inserção e qualificação das mulheres. Estudos do Ipea e da Fundacentro indicam que a maioria dos trabalhadores atingidos ganha até dois salários mínimos e que entre esses estão com maior incidência mulheres — sobretudo negras —, o que coloca a pauta no centro de debates sobre equidade e racismo estrutural.
Além do quadro de saúde e justiça social, o debate tem implicações políticas e fiscais que não podem ser desprezadas. A proposta de limitar ou encerrar a escala 6x1 criará pressão sobre empregadores e sobre a própria conta pública, especialmente se não houver regras claras de transição. O MPT propõe celebração de termos aditivos para os contratos terceirizados, mas caberá ao Congresso desenhar mecanismos que compatibilizem proteção do trabalho com previsibilidade legal e custos administráveis.
O parlamento, portanto, enfrenta uma decisão que mistura mérito social e custo político: avançar sem regras ajustadas corre o risco de gerar litígios, perdas de eficiência e reação empresarial; adiar a mudança pode perpetuar adoecimentos e desigualdades. A saída pragmática exigirá cláusulas de transição, diálogo com empresas e sindicatos e avaliação dos impactos econômicos — uma resposta legislativa que traduza a oportunidade histórica em normas que protejam trabalhadores sem sacrificar a responsabilidade fiscal.