A proposta que acaba com a escala 6x1, aprovada com larga vantagem na Câmara em 27 de maio, enfrenta agora um corredor incerto no Senado. Senadores aguardavam uma reunião de líderes para esta semana com o presidente da Casa, Davi Alcolumbre, mas o encontro foi remarcado para depois do feriado de Corpus Christi. A postura de Alcolumbre — pedir mais calma e defender que o tema passe por comissão antes do plenário — freia a pressa que vinha da Câmara e do Palácio do Planalto, e transforma a tramitação num terreno de intensa negociação política.
O texto aprovado na Câmara prevê folgas semanais obrigatórias (pelo menos dois dias) a partir de 60 dias da promulgação e a redução gradual da jornada de 44 para 40 horas (42 horas após 60 dias e o limite de 40 após um ano), preservando salários. O presidente da Câmara, Hugo Motta, alinhou-se rapidamente ao governo e empurrou a proposta adiante com apelo eleitoral. No Senado, entretanto, há divisão: 41 senadores de oposição assinaram uma alternativa que privilegia maior flexibilidade negociada entre empregado e patrão — entre os signatários está o pré-candidato Flávio Bolsonaro — e representa um contraponto direto ao modelo aprovado na Câmara.
Além do debate jurídico e de mérito, o tema assumiu caráter econômico e de custo público: entidades empresariais como CNI, Fiesp e CNC já se mobilizam contra a versão aprovada na Câmara, alegando que a mudança elevaria custos e poderia pressionar preços — estudos apresentados por essas organizações apontam impactos na ordem de 6% a 8% em preços médios, segundo seus representantes. Do outro lado, centrais sindicais e movimentos como o Vida Além do Trabalho organizam atos e ameaçam paralisações para cobrar a aprovação do fim da 6x1 na forma aprovada pela Câmara, argumentando que a alternativa proposta pela oposição precariza direitos.
O recuo tático de Alcolumbre tem efeitos políticos claros. Ao evitar uma votação apressada, o presidente do Senado ganha margem de manobra para negociar compensações e anexar emendas que alterem o alcance da proposta — atuação que pode amenizar impactos econômicos ou criar mais resistência pública. Para o governo, porém, o adiamento traz risco político: a aprovação precoce seria uma vitória legislativa com forte apelo eleitoral, enquanto a demora expõe o projeto à contestação de setores produtivos e a possíveis desgastes na opinião pública. Em suma, a PEC deixa de ser apenas uma reforma trabalhista para virar peça de pressão entre atores econômicos, bancadas e pré-candidaturas, com reflexos diretos na agenda fiscal e na estratégia política rumo a 2026.