O senador Flávio Bolsonaro deixou o país e, a partir dos Estados Unidos, publicou uma carta na qual agradece apoio do presidente argentino Javier Milei e do ex-presidente norte-americano Donald Trump. No documento, que passou por edição em poucos minutos — trocando a expressão que o colocava como o “verdadeiro presidente eleito” por outra em que se autodenomina “líder do Brasil” — ele repete alegações de fraude eleitoral sem apresentar provas e atribui o resultado a uma suposta extensão do horário de votação por decisão do Judiciário.
Os números oficiais da disputa contradizem a tese central da carta. O Tribunal Superior Eleitoral certificou o pleito, reconhecido também pela Organização dos Estados Americanos e por lideranças internacionais; o PL e as Mesas da Câmara e do Senado chancelaram o resultado. No segundo turno, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva obteve cerca de 64 milhões de votos, contra pouco mais de 59 milhões do senador. A eventual prorrogação de dois horários de votação computou algo em torno de 34 mil votos num eleitorado de cerca de 158,7 milhões — dados que colocam em perspectiva a alegação de que a alteração teria determinado o desfecho da eleição.
Além da narrativa sobre a votação, a carta protesta contra medida judicial que determinou a apreensão de passaportes, decisão assinada por um ministro do Supremo a pedido da Polícia Federal. Flávio é alvo de dois inquéritos no Supremo relacionados a supostas operações financeiras e ao financiamento do filme sobre seu pai. Ao anunciar que comandará parte da oposição desde os EUA e que assumirá riscos que os parlamentares do PL “não podem correr”, ele sinaliza uma estratégia que pode radicalizar a atuação do núcleo bolsonarista e transferir confronto institucional para o exterior.
A concessão do visto pelo governo dos EUA virou alvo de críticas públicas de comissões no Congresso americano, que apontaram contraste entre a rota aberta ao senador e restrições aplicadas a refugiados e migrantes. Politicamente, a fuga e a carta acendem alerta para o PL: a narrativa de contestação das urnas, já sem respaldo das instituições nacionais e de observadores internacionais, amplia desgaste e complica a reconstrução da alternativa governista. No plano institucional, a aposta de liderar a oposição a partir do exterior aumenta o risco de isolamento do grupo e pressiona aliados a definir se acompanham ou rechaçam uma estratégia que mistura contestação sem provas e confronto com o Judiciário.