Em vídeo divulgado nas redes sociais neste domingo (23/8), o candidato Flávio Bolsonaro (PL) confirmou que não participaria do debate promovido pela Band e justificou a ausência dizendo querer confrontar diretamente o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Na gravação, Flávio concentrou as críticas no desempenho econômico e na segurança pública do governo, atribuindo a Lula responsabilidade pela perda do poder de compra, pelo endividamento das famílias e pelo aumento de impostos. Sem apresentar dados novos, o candidato também mencionou investigações envolvendo pessoas próximas ao presidente e ao filho do chefe do Executivo.
A opção por transformar Lula em seu “único adversário” é, em si, um recado estratégico: buscar polarizar a disputa e manter a atenção do eleitorado conservador que vem migrando para o PL. Ao mesmo tempo, a decisão tem custos claros. Ao abrir mão do debate da Band, Flávio cede espaço de exposição a concorrentes que estarão no palco, deixando de somar pontos com eleitores indecisos ou que valorizam confronto público entre opções alternativas. A escolha sinaliza prioridade em consolidar sua base — e não tanto em ampliar apoios fora desse núcleo — o que pode limitar sua capacidade de penetração em setores mais moderados do eleitorado.
Nas propostas, o candidato apresentou um pacote genérico de medidas: o denominado “tesouraço” para reduzir impostos, despesas e burocracia; combate à corrupção; e medidas duras em segurança, como tratar facções criminosas como organizações terroristas e exigir trabalho de presos para custear a prisão. Essas bandeiras articulam bem o repertório conservador, mas carecem de detalhamento prático. Prometer corte de gastos e redução de carga tributária sem explicitar fontes de compensação ou avaliação fiscal gera questão política central: como concretizar as promessas sem pressionar as contas públicas ou provocar contradições entre estímulo ao crescimento e ajuste fiscal?
A invocação explícita de símbolos religiosos — com a promessa de decretar que “o Brasil é do Senhor Jesus Cristo” — reforça a aposta identitária, capaz de galvanizar apoiadores tradicionais. Mas também levanta dúvidas sobre o alcance eleitoral dessa mensagem em setores laicos e naqueles que avaliam política por resultados econômicos e administrativos. Em linhas gerais, a ausência no debate é uma aposta calculada: maximiza discurso de confronto com o presidente e fortalece a bandeira conservadora, mas expõe o candidato ao risco de parecer evasivo em relação a temas técnicos e de perder terreno entre eleitores que aguardavam explicações públicas e confrontos diretos entre alternativas políticas.