A oficialização da candidatura de Flávio Bolsonaro, aos 45 anos, marca a tomada de posição formal do bolsonarismo na corrida presidencial de 2026: escolhido publicamente por Jair Bolsonaro, hoje inelegível e preso após condenação relacionada à tentativa de reversão do resultado de 2022, o senador chega à cabeça de chapa com a tarefa de preservar o núcleo de apoio do pai. A convenção do PL no Pacaembu, que reuniu milhares de militantes e contou com a participação de Javier Milei, incluiu o uso de vídeos gerados por inteligência artificial para veicular uma mensagem de Jair — uma estratégia que simboliza tanto a dependência pela imagem do ex-presidente quanto os riscos de narrativa e auditoria política que a campanha terá de gerir.
Politicamente, a candidatura de Flávio traduz duas forças simultâneas: mobilização de uma base já consolidada e limitação para transbordar esse apoio a setores mais moderados. A leitura editorial é direta: há um capital eleitoral imediato, mas também um custo político. A dependência da figura paterna e a instrumentalização tecnológica da imagem de Jair podem acentuar críticas sobre autenticidade da liderança e limitar a capacidade de atração de eleitores independentes. Episódios de atrito interno — como a ausência de Michelle Bolsonaro no ato central e ruídos nas articulações partidárias — expõem fragilidades numa costura essencial para ampliar alianças em 2026.
O percurso político de Flávio, da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro ao Senado em 2018, embasa sua legitimidade entre os apoiadores. Mas a campanha não pode ignorar a sombra das investigações que o acompanham desde os tempos da Alerj, em particular o episódio conhecido como “rachadinha”, objeto de denúncia pelo Ministério Público do Rio. Embora parte das provas tenha sido anulada pelo Superior Tribunal de Justiça, o caso permanece como elemento de campanha que adversários explorarão e que tende a complicar captação de recursos, negociações políticas e presença em palcos de centro. Esse cenário acende alerta sobre a necessidade de respostas claras da candidatura sobre integridade e governança.
Para transformar herança em projeto viável, a campanha de Flávio terá de se estabilizar em três frentes: apresentar proposta econômica e administrativa crível para além do discurso de identidade, consolidar uma rede de apoios que supere o núcleo familiar e partidário e neutralizar o custo reputacional das investigações. A escolha do vice, Alfredo Gaspar, e gestos de aceno de membros do entorno, como o vídeo enviado por Michelle, são tentativas de costurar uma frente mais ampla, mas não garantem automaticamente penetração em eleitores de centro-direita. Em suma: a candidatura preserva a presença política do bolsonarismo na disputa, porém amplia o desgaste e complica a narrativa oficial se não conseguir provar capacidade de liderança própria e oferecer respostas às questões judiciais que a acompanharam.