O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) oficializa neste sábado a candidatura presidencial do PL em convenção em São Paulo, em ato que tem o argentino Javier Milei como presença de peso no xadrez da direita regional. O lançamento replica a estratégia de aposta no legado bolsonarista, mas chega marcado por uma sequência de contratempos que, do ponto de vista político, ampliam o desgaste da candidatura exatamente quando era preciso consolidar apoio e dissipar dúvidas sobre viabilidade eleitoral.

Nas últimas semanas, a campanha de Flávio virou alvo de reportagens e medidas judiciais que jogam sombra sobre sua narrativa de renovação. A divulgação de mensagens que o ligam ao banqueiro Daniel Vorcaro e pedidos de recursos para um filme sobre Jair Bolsonaro provocou reação institucional: o ministro André Mendonça determinou investigação sobre as transferências apontadas. Flávio negou intimidade com o banqueiro, mas o episódio reacende questionamentos sobre fontes de financiamento e exposição a conflitos que a militância do PL queria evitar no momento de lançar um projeto nacional.

Além do flanco judicial, a candidatura convive com desgaste na própria base familiar e eleitoral. A queixa pública da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, seguida por pedido de desculpas público e gesto de reconciliação, expôs rachas que atingem eleitorados sensíveis, como mulheres e evangélicos — fatias essenciais para o bolsonarismo. No plano eleitoral, a perda de fôlego nas pesquisas virou sinal de alerta: depois da aproximação registrada em março, o Datafolha mostrou vantagem de Luiz Inácio Lula da Silva em cenário de segundo turno (48% a 43%). Especialistas apontam aumento da rejeição e incerteza sobre a viabilidade da candidatura, elemento que pode dificultar a atração de apoios do centrão e a formação de palanques competitivos.

O lançamento também será palco de tensões externas que o candidato tenta transformar em argumento de campanha: as rodadas de tarifas aplicadas pelos Estados Unidos ao Brasil entraram no debate, com Flávio criticando a postura do governo e buscando capitalizar desgaste. Ao mesmo tempo, suas declarações sobre a confiabilidade das urnas eletrônicas evocam a mesma retórica que levou à inelegibilidade do ex-presidente e podem ampliar dúvidas institucionais sobre seu projeto. Em suma, o ato de hoje formaliza a candidatura, mas a imagem pública e a capacidade de costurar apoios seguem sujeitas a pressões jurídicas, intrigas familiares e uma dinâmica eleitoral que, até aqui, acende alerta para a oposição.